Nas estâncias hidrominerais

Estadão

22 Janeiro 2013 | 09h22

Grupo de veranistas da Pensão Miranda, em São Lourenço

Sabe as estâncias hidrominerais mineiras? Elas eram muito procuradas pela elite brasileira nas primeiras décadas do século 20. Políticos, escritores, artistas, aristocratas e integrantes da burguesia emergente passavam temporadas na região, atraídos pelas fontes de águas raras, sulfurosas e com poderes de cura.

O presidente Getúlio Vargas, por exemplo, tinha no Palace Hotel de Poços de Caldas uma suíte com a mesma decoração do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, então capital do País. Juscelino Kubitschek também foi presença constante na cidade, assim como outras figuras importantes da vida nacional, como Rui Barbosa, Santos Dumont e Olavo Bilac.

 

Família posa para lambe-lambe em Poços de Caldas

Além dos banhos e piscinas térmicas, o grand monde desfrutava de caminhadas, passeios a cavalo, bailes e jogatinas. Numa época em que o jogo ainda era liberado no Brasil, ricos apostadores batiam cartão em cassinos animados nos tempos áureos por grandes artistas da época, como Carmen Miranda, Orlando Silva e Carlos Galhardo.

Outras estâncias hidrominerais se desenvolveram nessa época. O segundo volume da enciclopédia Nosso Século revela que “a gente chic da cidade ia passar suas vacances em Paris ou no Rio de Janeiro, mas muitos preferiam as estações de águas de Minas, as melhores do Brasil”. Além de Poços de Caldas, o texto cita “Caxambu (frequentada assiduamente pelo presidente Rodrigues Alves), Cambuquira (paraíso de políticos e comerciantes) e Lambari (reino do coronel Joaquim Manoel de Melo, proprietário do Cassino Lambari)”.

Senhoras em Caxambu em 1907

 

O primeiro visitante ilustre das estâncias hidrominerais mineiras, é bem verdade, havia aparecido décadas antes, em 1886. Foi o imperador Dom Pedro II, que, acompanhado da imperatriz Dona Tereza Cristina, inaugurou na região um ramal da Estrada de Ferro Mogiana. Três anos depois, Poços de Caldas foi desmembrada de Caldas e elevada à categoria de vila. O nome vinha da cidade de Caldas da Rainha, em Portugal, terma muito freqüentada pela família real.

 Independentemente da idade, chapéu era imprescindível no figurino

As numerosas fontes de águas minerais de São Lourenço, um dos menores municípios mineiros, também atraíam muita gente. Situado ao pé da Serra da Mantiqueira, às margens do Rio Verde, foi fundado no século 17 por Lourenço Castanho Tazques, um desbravador que conseguiu vencer os temíveis índios cataguazes e montar em 1675 um acampamento na área. Nessa época, bandeirantes já passavam por ali em busca de ouro, pedras e índios, sem atentar para a riqueza terapêutica das águas. Só muitas décadas depois, as histórias sobre as fontes alcalinas e seus benefícios no auxílio ao tratamento de arteriosclerose, hipertensão, insuficiência cardíaca e outros problemas se espalharam.

Família reunida em São Lourenço em 1935

A alguns quilômetros de São Lourenço, Cambuquira era outra cidade muito procurada para férias. Surgiu após a descoberta das fontes de águas minerais na antiga Fazenda Boa Vista e também ganhou seu Parque das Águas, com fontes hidrominerais de grande valor terapêutico (gasosa, ferruginosa, magnesiana e sulfurosa). Como outras cidades do Circuito das Águas, teve sua fase áurea como balneário na primeira metade do século 20, quando costumava receber a visita de personalidades, que se hospedavam nas belas construções dos hotéis do centro.

Pose em Cambuquira, 1934

A proibição do jogo, em 1946, e a descoberta do antibiótico tiveram forte impacto no turismo das estâncias. O termalismo deixou de ser a maneira mais eficaz de tratar doenças. E os cassinos foram fechados. A economia local sofreu um grande abalo. Até que a região – e sobretudo Poços de Caldas – entrou no “ciclo da lua-de-mel” e virou um dos destinos prediletos de recém-casados em meados do século. Depois, foi descoberta pela classe média e grandes grupos passaram a frequentar suas termas e fontes, antes restritas à elite.