Volta às aulas

Estadão

14 Fevereiro 2013 | 08h13

Por muito tempo, a escola no Brasil foi dividida em jardim de infância, primário, ginásio e colegial ou liceu. Perto dos cinco anos de idade, os pais matriculavam seus filhos no jardim de infância. Nele, além de monitorarem de perto atividades pedagógicas e brincadeiras como pega-pega e passa-anel, as professoras contavam histórias de santos e personagens de contos de fadas para tentar calar, pelo menos por alguns minutos, a pequena multidão barulhenta.

 

Outros programas obrigatórios eram o teatro de marionetes e o João Minhoca. Esperados ansiosamente pelas crianças, eles foram uma espécie de precursores dos desenhos animados e filmes infantis. O primeiro, mais raro, requeria habilidade para manipular a fiação que ligava as diferentes partes do corpo dos bonecos a uma espécie de cruz de madeira. Conforme o movimento das mãos, as marionetes se movimentavam de um lado para outro, imitando expressões humanas. No João Minhoca, o trabalho era mais simples – o operador tinha apenas de colocar o dedo indicador na cabeça oca do boneco e os dedos polegar e médio nos buracos dos dois braços. Com o movimento dos três dedos, o boneco – que só aparecia no palco da cintura para cima – agitava-se todo.


A moleza acabava depois de um ou dois anos de jardim de infância, quando, após avaliação e aprovação das professoras, as crianças eram matriculadas no primário. Para isso, era necessário que já tivessem completado pelo menos seis anos de idade.

No primário, as brincadeiras geralmente ficavam relegadas à hora do recreio, que sempre parecia curta demais. De vez em quando, para matar a saudade, alunos do primeiro ano eram convidados a assistir ao João Minhoca no jardim. Era uma festa.

 

Após quatro anos no primário aprendendo Língua Portuguesa, Aritmética, História e Geografia do Brasil, chegava o quinto ano, no qual as crianças eram preparadas para o Exame de Admissão ao Ginásio, espécie de vestibulinho. Entrando no ginásio, o número de matérias aumentava: Ciências, Desenhos Geométrico e Artístico, Francês, Inglês, Latim, Música e Trabalhos Manuais, além de História e Geografia Universais. O liceu ou colegial demandava outros três anos de vida escolar e tinha mais disciplinas no currículo, incluindo Física, Química e Filosofia. Durante os 12 anos do período escolar, havia também as aulas de Educação Física, em que sessões de ginástica e atletismo se misturavam a jogos de futebol, vôlei e basquete.

 

Nas primeiras décadas do século 20, as escolas eram, em sua maioria, masculinas ou femininas – raras eram as que mantinham classes mistas. Havia escolas públicas, geralmente com ensino de alta qualidade, e escolas privadas, mantidas por leigos ou religiosos.

Diferentemente de hoje, em que há esforço de governo e sociedade para que toda criança esteja na escola, há um século apenas uma minoria frequentava os bancos escolares. Reportagem feita pelo jornal Folha de S. Paulo a partir de dados do Anuário Estatístico do Brasil mostrou que em 1940 havia 3,3 milhões de estudantes brasileiros nos níveis primário e secundário, equivalentes hoje aos ensinos fundamental e médio. O número de crianças e adolescentes matriculados na escola representava apenas 21% do total de 15,5 milhões de brasileiros entre 5 e 19 anos.

A rígida disciplina que imperava nas escolas nas últimas décadas do século 19 e nas primeiras do século 20 pode ser notada nas famosas “fotos de classe”, que eram tiradas anualmente em quase todos os colégios e geralmente vendidas aos alunos como recordação. Fisionomias sérias e atentas eram regra, assim como os braços e pernas dispostos na mesma posição. Ao lado das crianças, imponentes diretores e professores, em poses circunspectas, davam mostras não só de sua autoridade como do orgulho de formar mais uma classe.

As fotos e informações deste post fazem parte do livro Álbum de Retratos – Photographias Brazileiras, escrito pelos autores deste blog e publicado pela Editora TrezMarias. Se você também tiver fotos antigas de escolas e quiser vê-las publicadas, basta enviá-las para o e-mail blogalbumderetratos@gmail.com, se possível com data e local onde foi tirada.

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