‘Estado’ celebra 137 anos com acervo digitalizado

‘Estado’ celebra 137 anos com acervo digitalizado

Edmundo Leite

04 Janeiro 2012 | 01h47

     

Leitores terão acesso a 2,4 milhões de páginas publicadas desde 1875

José Maria Mayrink, de O Estado de S.Paulo

Fundado em 4 de janeiro de 1875 com o nome de A Província de São Paulo, o jornal O Estado de S. Paulo, que passou a se chamar assim em 1890, após a proclamação da República, está digitalizando a sua história ao completar 137 anos de existência. A partir deste ano, o público terá acesso a todas as páginas do diário, mais de 2,4 milhões, pelo computador. O lançamento ocorrerá no primeiro semestre, em data a ser brevemente anunciada.

“Vamos colocar toda a coleção do Estado, desde a primeira edição de A Província de São Paulo, à disposição do público, com todo o conteúdo do jornal, tudo digitalizado”, informa o diretor de Projetos Digitais, João Cabral. Ele e o gerente Paulo Silvestre coordenam uma equipe de 50 funcionários que trabalham desde fevereiro do ano passado na digitalização de todo o material publicado.

Foi um trabalho que, como observa o diretor de Conteúdo, Ricardo Gandour, demandou tempo compatível com o porte do arquivo. “É fascinante o Estado escrever a sua história, pois ele tem uma das mais longevas trajetórias jornalísticas do mundo”, acrescenta. “É como se o Estadão estivesse dando um furo na rede, tuitando com a Revolução, quando um pesquisador recorresse às páginas digitais para conferir a luta dos paulistas contra Getúlio Vargas em 1932.” Para Gandour, “o uso desse acervo é um serviço à sociedade e ao País”.

“Não há nenhum outro grupo de mídia brasileiro que tenha 137 anos de informação, são 137 de história do Brasil”, reforça o diretor-presidente do Grupo Estado, Silvio Genesini. “O acervo do Estado é valor e bem cultural que, além de textos, abrange milhões de fotos.” Genesini adianta que, numa segunda fase, a digitalização se estenderá à coleção do Jornal da Tarde, lançado em janeiro de 1966, do Estadinho, edição vespertina que circulou de 1915 a 1921, o Supplemento em Rotogravura (abril de 1928 a dezembro de 1941) e todo o acervo da Rádio Eldorado e do Estúdio Eldorado. A digitalização dará destaque à censura sofrida pelo Estado em vários períodos, especialmente após a edição do Ato Institucional n.º 5 (AI-5) em 13 de dezembro de 1968. Convênios com escolas e bibliotecas, anuncia Genesini, facilitarão o acesso ao acervo.

Para o diretor de Estratégia Corporativa, José Papa Neto, o lançamento do acervo digital do Estado “representa um momento histórico, porque possibilita ao País revisitar os fatos ocorridos nos últimos 137 anos”. A digitalização dá sequência a uma série constante de inovações tecnológicas que sempre marcaram a trajetória do Estado. A primeira foi a contratação da agência de notícias Havas, atual France Presse, pelo jornalista Julio Mesquita, o patriarca da família proprietária da empresa. Foi ele que, depois de assumir, em 1888, o cargo de diretor-gerente da Província, publicou pela primeira vez um clichê na capa do jornal – o retrato de um caixeiro morto no incêndio da Loja da China, no centro da cidade.

Guerras

A agência internacional de notícias deu agilidade à transmissão do material sobre a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), possibilitando a Julio Mesquita escrever comentários sobre o conflito. Foi também Julio Mesquita quem enviou Euclides da Cunha para cobrir a Guerra de Canudos, ainda nos primeiros anos da República, no interior da Bahia. Aprofundados em seguida, os relatos e observações do repórter levaram à publicação de Os Sertões.

O jornal viveu uma fase difícil, após a guerra, quando os paulistas se levantaram contra o presidente Artur Bernardes, na Revolução de 1924. Censurado primeiro pelos revoltosos, voltou a sofrer nas mãos do governo, porque insistia em publicar informações sobre o conflito. Julio Mesquita foi preso e mandado para o Rio de Janeiro pela polícia de Bernardes. Quando ele morreu, em 1927, seus filhos Julio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita assumiram a direção da empresa.

Cinco anos depois, na Revolução Constitucionalista de 1932, o Estado começou a ser perseguido por Getúlio Vargas, que o jornal havia apoiado em 1930. Com a derrota do movimento, os donos do jornal foram presos e exilados em Portugal, de onde só retornariam dois anos depois. De volta ao País, Julio de Mesquita Filho coordenou a criação da Universidade de São Paulo (USP), a convite de seu cunhado Armando de Salles Oliveira, que havia sido nomeado interventor e em seguida eleito governador.

A trégua durou pouco. O golpe de 10 de novembro de 1937, que oficializou a ditadura com o Estado Novo, trouxe a censura de volta. Julio de Mesquita Filho foi preso 17 vezes em poucos meses e de novo mandado para o exílio, juntamente com Salles Oliveira, agora na França. Deixaram a Europa pouco antes de estourar a Segunda Guerra. Como não podiam desembarcar no Brasil, Julio de Mesquita Filho refugiou-se na Argentina, enquanto Salles Oliveira optava pelos Estados Unidos.

Esse segundo exílio coincidiu com a ocupação do jornal pela polícia do interventor Ademar de Barros, a mando de Getúlio Vargas. O Estado passou cinco anos sob controle da ditadura, período que a família Mesquita não conta na história da empresa.

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