Maconha: de uso medicinal a caso de polícia

Maconha: de uso medicinal a caso de polícia

Edmundo Leite

13 Abril 2012 | 18h10

Não é de hoje que a maconha é um tema que desperta interesse de estudantes da USP. Assim como neste 2012 em que estudantes propõem uma “semana do baseado” para discutir o consumo da droga, em 1957 o Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito, patrocinou uma conferência intitulada “O Mito da Maconha”, com o professor Jaime Regalo Pereira.

Catedrático aposentado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Jaime Regalo Pereira defendeu na sua palestra que, ao contrário dos efeitos somáticos conhecidos, os alegados efeitos psíquicos observados em usuários – estados alucinatórios ou visionários – não podiam ser atribuídos à maconha.

O Estado de S. Paulo – 30/5/1957


O uso da maconha no Brasil é descrito nas páginas do Estadão desde o fim do século 19. Como não havia restrição à droga – só em 1938 a substância foi considerada entorpecente –  e o uso medicinal era corriqueiro, havia vários anúncios patrocinados por médicos e clínicas exaltando os benefícios da cannabis em tratamentos de saúde.

As principais indicações eram para problemas respiratórios como asma, bronquite e tosse. Os “cigarros índios” (cigarrettes indiennes) com a substância  cannabis indica, do laboratório francês Grimault & Comp, eram vendidos livremente e seus benefícios eram veiculados em testemunhais na seção livre do jornal.

   

1) 30/6/1895     2) 19/7/1895

 

 3) 22/5/1896      4) 22/5/1897

    

 5) 07/6/1900      6) 21/4/1901

Embalagem dos cigarros índios de cannabis indica no Museum of the Royal Pharmaceutical Society:

Documento

  • jjj   PDF

Cigarros índios da Grimault no site The Antique Cannabis Book:

Nos anos 30, o Estadão publicava o relato de Gastão Cruls sobre uma expedição que realizava na Amazônia, no qual falava sobre a maconha. :

“… O dirijo, também conhecido por “fumo d’Angola”, “maconha, “diamba, ou “riamba” é a cocaína do caboclo… “

“…Informa-me o Ricardo que o dirijo (nome mais em voga aqui”, também é appellidado de “birra”, e quando eu lhe peço maiores esclarecimentos acerca dos seus effeitos, elle se limita a dizer que um bom cigarro desse fumo faz a pessoa ficar “falista”…”

 O Estado de S. Paulo – 04/1/1930

Com a droga proibida, o consumo de maconha virou questão policial. Um nota dos anos 50 mostra uma discussão sobre as estratégias para combater a droga no II Congresso Nacional de Polícia.

 O Estado de S. Paulo – 15/5/1958

Na próxima semana, novos posts sobre a história da maconha no Brasil.

Leia também:
# Applicação de cocaína em extração dentária
# A proibição do absinto na França em 1911
# Uma curiosa revista argentina

Pesquisa e Texto: Edmundo Leite e Carlos Eduardo Entini
Siga o Arquivo Estadão: twitter@estadaoarquivo | facebook/arquivoestadao | Instagram