Montreal se rende à rainha Nadia

Montreal se rende à rainha Nadia

Lizbeth Batista

18 Julho 2011 | 05h02

 

No dia 18 de julho de 1976, uma pequena ginasta romena de 14 anos de idade, 1,53 metros de altura e 44 quilos, deixou o público estarrecido com sua impecável apresentação  na trave. Num feito inédito, Nadia Comaneci atingiu a nota máxima, o dez perfeito e a Olimpíada de Montreal “viu o desabrochar de um prodígio” .

 

“A surpreendente ginasta romena, medalha de ouro, deixou espectadores e telespectadores boquiabertos, subjugou os juízes, complexou os adversários e comoveu os colegas”, era assim  que os jornais descreviam  as apresentações de Nadia. Seu desempenho   fez com que fosse chamada  Rainha de Montreal.

Reinou absoluta. Foi medalha de ouro nas barras assimétricas, na trave de equilíbrio e no individual geral. Também levou uma medalha prata como a melhor ginasta da equipe da Romênia, e uma de bronze na prova de solo. Pela primeira vez na história uma ginasta recebeu sete notas 10 dos jurados.

       

Ao retornar para casa, Nadia  era o maior ídolo nacional da Romênia. Sua imagem foi rapidamente empregada nas propagandas oficiais do Estado.

Na sua estratégia de propaganda política, em solenidades oficiais, o presidente Ceausescu exibia a atleta como seu talismã. A carismática garota de olhos castanhos, que elevou a ginástica à posição de esporte nacional e liquidou com a supremacia soviética no esporte, recebeu o título de “Heroína do Trabalho Socialista” e passou a retratar o projeto nacionalista idealizado pelo clã Ceausescu.

 Nas Olimpíadas de Moscou, em 1980, todos os  olhos se voltaram novamente para Nadia.

Nela pouco restava da fisionomia infantil ornamentada por cabelos presos num rabo de cavalo e um sorriso juvenil. Temida pelas outras competidoras, Comaneci, então com cabelos curtos e maquiagem nos olhos, estava mais velha, mais pesada e mais alta. Seu corpo não lembrava o da menina que reinou em Montreal, revelava uma nova figura, mais madura, feminina e compenetrada.  Alguns disseram que mais triste.

Moscou  foi a última competição olímpica de Comaneci, e ela esteve à altura do mito que representava. Levou para casa duas medalhas de ouro, conquistou o bicampeonato na trave e venceu a disputa de solo.

 Os anos 80 trouxeram intensas transformações e reformas aos países do bloco soviético. O mundo presenciava um rápido processo de abertura nos países do Leste Europeu, o vento das mudanças políticas soprava forte sobre a Rússia, Polônia, Hungria, na Alemanha ele derrubou o muro.  A Romênia, na época um dos mais atrasados países atrás da Cortina de Ferro, sofria com a política de austeridade imposta pelo governo. Para pagar uma dívida externa bilionária, enquanto investia na indústria pesada, Ceausescu impunha racionamentos e condenava a população à fome.

Logo no começo da década, Nadia  viu seu treinador e seu noivo fugirem da Romênia.  Emocionalmente abalada,  Nadia , então, se envolve com o filho do ditador  Ceaucescu, seu herdeiro, Nicu. Em 1984 deixa as competições e tenta  fugir durante uma viagem ao Canadá, mas tem seus planos frustrados. Capturada pela polícia espécial romena, Securitate, é forçada a retornar ao país , onde passa a dedicar-se ao treinamento das  equipes juvenis romenas. Seu maior objetivo tornara-se  deixar o país.

Em 1989, muitos daqueles que assistiram a pequena Nadia desafiar a gravidade, com saltos graciosos e precisos, puderam vê-la, 14 anos depois,  fugir do seu país e buscar asilo nos Estados Unidos.  Tal como seu antigo técnico e descobridor, Bela Karoly, fizera há alguns anos.

A empatia despertada pela atleta sensibilizava de maneira particular a opinião pública mundial.   As pessoas se penalizavam com seus relatos de abusos. Em entrevistas, ela falava da falta de liberdade de ir e vir, das viagens e oportunidades profissionais que perdeu, contava com detalhes a história de uma vida do outro lado da cortina. Falava da completa ausência de direitos civis, das privações e imposições do governo totalitário de Ceausecu.  Contando sua história, Nadia revelava a tirania vivida por milhares de romenos.

Amamos os heróis porque ao torcer por eles é como se dividíssemos com eles a vitória, por alguns instantes sua glória é nossa também. Foi destino de Nadia não dividir com seus fãs apenas glórias, ela escolheu tornar público os horrores vividos em seu país. Por isso é, também, na superação do seu drama que mora um dos maiores legados da sua vida.

A imagem de Comaneci desembarcando em solo americano e declarando “Eu quero uma vida livre para mim” conferiu enorme eloqüência ao momento histórico do seu país.

Dias depois que seu talismã deixou o país, em 22 de dezembro de 1989, Ceausescu foi deposto pela  revolução popular anticomunista. Após um julgamento sumário, ele e sua esposa foram executados.

Pesquisa  e texto: Lizbeth Batista

Tratamento de imagens: César Auguisto Franciolli e José Brito

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