Nascimento e morte de um cinema

Nascimento e morte de um cinema

Edmundo Leite

17 Março 2011 | 10h13

Espetáculo, Polêmica e Cultura. Era o que prometia o grande letreiro no prédio próxima da esquina da  Consolação com a Paulista e o anúncio estampado na página do Estadão de 14 de julho de 1967.

Nos 44 anos que se passaram, a promessa foi cumprida. Grandes filmes, discussões e polêmicas marcaram a existência do Cine Belas Artes, que fecha suas portas hoje com a exibição de clássicos do cinema em suas salas.

E a polêmica prometida no cartaz  aconteceu logo na estreia. Um mês antes da abertura, Florentino Llorente, da Companhia Serrador e da Sociedade Amigos da Cinemateca, responsável pela programação, falava em uma ousada e diversa programação para o novo espaço. Além dos filmes, a sala de 1.400 lugares receberia “pequenas apresentações de teatro, música e dança”   e  teria iluminação adequada e sistema sonoro que facilitem palestras e conferências”.

Evocando a eterna discussão sobre cinema comercial x cinema de arte,  Llorente fazia  “blague”, como se dizia à época, dizendo que “para os cinéfilos, os exibidores sempre são uns gangsters”. E para mostrar que não era um, afirmava que  a decisão de instalar “um grande cinema devotado ao filme de arte foi ditada pela necessidade de São Paulo ser possuidora de uma sala de grande categoria com programação especial, a exemplo do que acontece em outras grandes cidades do mundo”.

E continuava: “O filme de arte que, antes, era um verdadeiro tabu para o exibidor, hoje, graças a ação de cinematecas, cine-clubes, imprensa especializada, realizadores nacionais, debates e estudos nos meios estudantis, exibidores e distribuidores mais esclarecidos, é até mesmo solicitado por uma platéia em formação e que, em matéria de qualidade artística é mais exigente”. Ou seja, dizia que acreditava que os filmes de artes tinham viabilidade comercial.

Dias depois, o Estadão noticiava que os filmes cotados para a estreia eram  “Os Amores de um Loura”, de Milus Foman,  “Julieta dos Espíritos” de Fellini (se a cópia chegasse a tempo) ou “Bravos da Arena” de Francesco Rosi. “Não podendo precisar ainda o nome da fita, os dirigentes da SAC só podem afirmar que será uma obra de grande valor cultural”.

Enquanto a atração era escolhida, a inauguração prevista para o fim de junho foi adiada para segunda quinzena do mês seguinte. No dia 1 de julho, uma notinha no Estadão anunciava o escolhido. E, surpresa: nada de Milus Forman, Fellini ou Rosi. A fita que inauguraria “o maior cinema de arte da América do Sul” seria a comédia “Os Russos Estão Chegando”. Dirigido por Norman Jewison, o filme americano havia disputado vários Oscars e inaugurado o festival de Cannes de 1966.

A justificativa para a escolha contrariava todo o discurso de Florentino Llorente :  “Sentiu a SAC que tendo sua lotação de 1.400 lugares – não poderia sujeitar o Belas Artes a uma programação restrita, orientada somente aqueles que aceitam somente o cinema como grande arte. Por esse motivo foi escolhida a película, que corresponde à amplitudade de perspectivas do Belas Artes e os objetivos culturais da SAC.”

Se parecia não cumprir o prometido na inauguração, o Belas Artes aos poucos foi impondo o seu estilo e não faltaram os chamados filmes de arte  e nem os chamados filmes comerciais  nesses anos todos de programação.  Mesclando, mostrou na prática que essa divisão é uma grande bobagem. O que vale é o prazer de assistir um bom filme.

Com a passar do tempo, as polêmicas sobre a programação saíram de cartaz. O Belas Artes deixava de ser assunto  cultural e passava a ser notícia nas páginas dedicadas a problemas urbanos.

Em 1981, o cinema foi alvo de uma operação da Prefeitura, que exigia a readequação de 4.100 prédios da cidade, segundo novos padrões de segurança. Setecentos deles eram teatros, salas de baile, restaurantes e cinemas, que deveriam obter o devido alvará de funcionamento. Sem a papelada em dia, referências importantes do circuito cultural paulista viram-se ameaçadas. Salas  de cinema, como o cine Astor, do Conjunto Nacional, foram interditadas por falta de segurança e as três salas do Belas Artes também não escaparam à inspeção.

Dentre as irregularidades técnicas, a fiscalização apontou que a Sala Portinari apresentava “grande carga de material combustível, como o revestimento das paredes em madeira…” a sala Vila-Lobos era a mais segura, mas as escadas eram estreitas e sem sinalização. A sala Mário de Andrade era a que apresentava maior perigo, só tinha uma saída.

Apesar dos problemas, ele prosseguiu aberto por possuir extintores de incêndio e hidrantes em perfeito estado de funcionamento, informou o Corpo de Bombeiros à época. Ao Belas Artes foi dado um prazo de vinte dias para realização dos reparos exigidos. Decorrido o prazo, nenhum relatório oficial detalhando as medidas a serem aplicadas havia sido formalmente entregue pela Prefeitura. Sua programação seguia em frente.

“Duas horas e meia de fogo. Está destruído nosso mais importante cinema de arte”, noticiava  o Jornal da Tarde em 11 de maio de 1982.  Portas e cofres arrombados e gavetas reviradas apontavam para uma ação criminosa. A prefeitura relembrou que suas salas estavam em condições irregulares, mas a perícia concluíra que o incêndio não fora acidental. Foram descobertos, no dia seguinte ao desastre, três pontos distintos em que o fogo havia sido originado.

Um ano depois,  o Estadão anunciava: “Das cinzas, o novo cine Belas Artes reabre”, para duas semanas depois, em 15 de junho, divulgar uma nova interdição. Suas seis salas, modernas e sofisticadas, extrapolavam um projeto que originalmente previa apenas cinco.

Em dois de julho, cineastas e produtores protestavam contra a demora em reabrir as salas, afinal, o novo espaço pós-incêndio já despontava como uma nova referência em cinemas da cidade. Ampliado e modernizado, figurou como uma espécie de antecessor do que viriam a ser os espaços multiplex atuais. A reivindicação seria atendida ao final de outubro, quando as bilheterias voltaram a vender ingressos para “Danton:, o processo da Revolução”, “Retratos da vida”, “Sargento Getúlio”,”Casanova e a Revolução”.

Desde então, várias reformas e modificações foram feitas.  Seguindo tendências, o pomposo nome ganhou nos últimos anos a companhia de nome  patrocinadores à frente.

A Lei Cidade Limpa acabou com a festa dos cartazes pintados que eram quase como assistir a um filme. Impossível dizer quantos paulistanos que provavelmente  nunca entraram no cinema   tiveram contato – através de  um título e uma imagem – com obras que jamais veriam enquanto o ônibus lotado passava pela Consolação:  “Bagdá Café”?, “Daunbailó”?, “Quando Éramos Reis”?…

Alguns ficaram tanto tempo em cartaz que se incorporavam a paisagem da cidade. “9 ½ Semanas de Amor” bateu recorde de permanência em cartaz, quando isso queria dizer exatamente isso: que um cartaz ficou ali pendurado por um tempão. Mesmo quem não assistiu, pôde, diariamente, ver uma sensual Kim Basinger quando ia e voltava do trabalho ou passasse por ali de bobeira.

Ocupando o edifício onde antes funcionava outro cinema, o Belas Artes mostrou nesses anos que um cinema são os filmes ali programados. E não um prédio.

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Pesquisa e texto: Luiz Rangel e Edmundo Leite