Baterias das escolas viram reduto de famosos

Estadão

03 Março 2011 | 14h53

Bruno Boghossian, de O Estado de S.Paulo

Sob o apito dos mestres de bateria, o prefeito, o ator de novelas, o filho do governador, o craque do futebol e o morador da Baixada Fluminense são todos iguais. No carnaval do Rio, personalidades conquistaram espaço entre os ritmistas das escolas de samba, em um dos setores mais fechados das agremiações, aceitando a responsabilidade de ditar o ritmo dos desfiles.

Apresentar figuras públicas em uma área nobre se traduz em exposição extra para as escolas, mesmo que muitos mestres de bateria torçam o nariz. Os ritmistas têm uma rotina rígida de treinos, o que afasta personalidades com agendas lotadas.


Neste ano, no entanto, a lista de ritmistas famosos é variada. O ator Edson Celulari volta à Beija-Flor; um dos filhos do governador Sérgio Cabral (PMDB), Marco Antônio, sairá na bateria do Salgueiro; Ronaldinho Gaúcho, recém-chegado à cidade, é esperado na Grande Rio e na Portela; e o prefeito Eduardo Paes (PMDB) vai tocar na União da Ilha, na Portela e na Grande Rio – que não serão julgadas por causa do incêndio que destruiu seus barracões. “Como o desfile dessas escolas neste ano não conta ponto, eu fico mais à vontade para participar”, disse Paes.

Celulari, Cabral e Ronaldinho Gaúcho já têm intimidade com os instrumentos que tocam. Até o prefeito adquiriu experiência na área, depois de participar de alguns ensaios. “No segundo ensaio técnico ele já estava bem melhor. Acho que ele ensaiou em casa”, brinca Mestre Riquinho, da União da Ilha.

Para evitar que novatos e forasteiros saiam do ritmo, os mestres de bateria costumam colocá-los ao lado de ritmistas com mais desenvoltura com seus instrumentos. “Eu digo para eles acompanharem os mais experientes e falo: “vem no bolo e fica esperto””, resume Mestre Ciça, da Grande Rio. A tática deu certo com Paes, que contou com a ajuda de uma ritmista de 19 anos, que dava dicas e até broncas quando o prefeito saía do ritmo em ensaios da União da Ilha.

Agenda. Para superar as ausências em parte dos ensaios, muitas personalidades se tornam exemplo de dedicação, segundo os mestres de bateria. “O Edson (Celulari) nem sempre pode ir aos ensaios por causa do trabalho, mas é tão empenhado quanto os outros. Ele não se sente uma estrela e age como um integrante da comunidade”, conta Mestre Rodney, da Beija-Flor.

Celulari conta que o esforço é ampliado pela paixão que ele sente pela escola, onde começou há oito anos. Agora, diz estar ainda mais feliz com a parceria do filho Enzo, de 13 anos, que também desfilará na bateria da Beija-Flor. “É emocionante ver essa evolução. Quando era pequeno, ele via meus ensaios.”

Marco Antônio Cabral recebeu elogios de Mestre Marcão, do Salgueiro. Como a ala faz referência à série de filmes Tropa de Elite, o filho do governador vestirá uma fantasia do Batalhão de Operações Especiais (Bope).

A presença das celebridades pode, porém, ter resultado negativo na hora do desfile: a aproximação dos fotógrafos e cinegrafistas, que chega a irritar os mestres. “Quando os fotógrafos querem ficar em cima, você tem de ficar arrumando a bateria o tempo todo”, reclama Mestre Ciça.

Mesmo com as dificuldades, alguns mestres defendem os convites às celebridades. “É legal ter essa mistura: tudo de bom e de ruim está na bateria”, diz Cica. “E ter um jogador de futebol famoso como o Ronaldinho é ótimo. Quem não quer?”

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