Mangueira encerra desfile com homenagem a Nelson Cavaquinho

Estadão

07 Março 2011 | 05h16

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Enredos biográficos já levaram a Mangueira à glória – em 1984, cantando Braguinha, e em 1998, com Chico Buarque, foi campeã – e à ruína – em 1989, falando do ex-rei da noite do Rio Chico Recarey, chegou perto do rebaixamento. No fim da noite de domingo, com Nelson Cavaquinho, não chegou a qualquer dos extremos. Os mangueirenses que resistiram à chuva e ao cansaço saíram do Sambódromo com dia claro, cantando os versos de louvação ao compositor que se tornou um dos símbolos da escola e felizes. Mas o desfile ficou aquém da escola e do enredo.

A ruidosa vaia ao presidente, Ivo Meirelles, ao se dirigir aos componentes e ao público na entrada da escola, já era um mau prenúncio. “Eu vou usar uma frase de Cartola: ‘Mangueira, por você fiz o que pude’”, disse, num tom egocentrado. O público não perdoou. Depois veio um discurso longo e desnecessário, lido pelo ator Milton Gonçalves, de evocação a Nelson Cavaquinho. A plateia não queria papo, esperara até tarde para ouvir samba, e não falatório.

Nelson apareceu já na comissão de frente, acompanhado dos boêmios “amigos de fé” e companheiros de mesa, do Morro da Mangueira. Também ao lado de Beth Carvalho – que desfilou mesmo ainda estando mal da coluna –, Sérgio Cabral (autores do enredo) e Guilherme de Britto, seu parceiro, no carro que representava o Zicartola, seu palco. E fechou o desfile, “voando” como um anjo de asas longas. Antes, a escola mostrou referências a seus sambas, uns mais conhecidos do que outros: “A Flor e o Espinho’, “Folhas Secas”, “Juízo Final”, ‘A vida.”


Faltou criatividade aos carnavalescos Mauro Quintaes e Wagner Gonçalves – a Mangueira tinha fantasias repetitivas, e não se viu muita inventividade no chão nem nas alegorias –, que pecaram também no acabamento dos carros (já o abre-alas era problemático). Mas sobrou disposição entre os componentes, que batiam no peito para dizer versos do samba-enredo (em primeira pessoa, Nelson falando), como “Sou mangueira”. Mesmo que o sotaque fosse paulistano. Os puxadores ficaram em silêncio em vários momentos para deixar que a vozes dos componentes e das arquibancadas se sobresaíssem. Foi bonito uma vez, depois perdeu a graça.

Quem conviveu com Nelson no morro era só emoção, como se cantava na letra do samba. “Lembro dele amanhecendo no Buraco Quente, cantando e bebendo. Era disso que ele gostava”, dizia, na concentração, dona Léa de Araujo, 68 anos de Mangueira. (Roberta Pennafort)

Confira o samba-enredo da Mangueira:

O filho fiel, sempre Mangueira

Quis o Criador me abençoar

Fazer de mim um menestrel

Traço o meu passo no compasso

Do surdo de primeira

Sou Mangueira!

Trilhei ruas e vielas

Morro de alegria, de emoção!

Procurando harmonia, encontrei a poesia

E me entreguei à boêmia

No Buraco Quente, Olaria e Chalé

Com meus parceiros de fé

Trago violão

No Zicartola, Opinião

Se te encantei com meu talento

Acabo te vendendo uma canção

Passei… Aquela dor venceu espinhos

“Amor Perfeito” em nosso ninho

Que foi desfeito ao luar

Prazer… Me chamam Nelson Cavaquinho

Tatuei em meu caminho

Seletas obras musicais

Sonhei que “Folhas Secas” cobriam meu chão

Pra delírio dessa multidão

Impossível não emocionar

Chorei… Ao voltar para minha raiz

Ao teu lado eu sou mais feliz

Pra sempre vou te amar!

Mangueira é nação… É comunidade!

“Minha Festa”, teu samba ninguém vai calar!

Sou teu filho fiel, Estação Primeira,

Por tua bandeira vou sempre lutar!