A biosemiótica e o Caramujistão

A biosemiótica e o Caramujistão

Paulo Rosenbaum

24 Janeiro 2018 | 08h43

Parece que tudo, ou quase tudo, passa por nosso crivo interpretativo, mas e se não houver um crivo? Um sistema de notação que permita uma interpretação lógica?  No mínimo que respeite regras hermenêuticas consensuais? Por exemplo, aquelas que produziram um efeito colateral conhecido como civilização. E que até ontem nos permita extrair uma aproximação, a mais verdadeira possível, da realidade.

Cansado de discussões estéreis, desonestidade de intelectuais militantes e polêmicas de fundo de ateliê, e esgotados todos os argumentos de valor universal, parece que se quisermos preservar o bom humor e a saúde mental só nos resta trazer a discussão para o mundo analógico da ficção. Portanto, segue uma breve fábula. Como defesa antecipada é preciso dizer que aceitamos a classificação das espécies e a taxonomia, não temos preconceito algum contra qualquer reino animal, vegetal, mineral ou protista. Até mesmo tinha-se, remotamente, algum grau de empatia por este molusco gastrópode aquático, o planorbídeo, o qual, em linguagem popular, é mais conhecido como caramujo.

No campo científico da biosemiótica há uma pergunta essencial: como será que os outros seres vivos interpretam o mundo das representações humanas? Já que o significante é o objeto a ser interpretado e o significado sua interpretação, qual seria a avaliação que um caramujo faria diante das regras e convenções, como, por exemplo, um semáforo de trânsito? E quais seriam as consequências da distorção dessas regras dentro da própria comunidade de planorbídeos?

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Um caramujo que se achava inimputável encontra-se parado diante de um semáforo tentando entender o significado da oscilação das luzes. E acaba de receber uma mensagem: a colônia que ele liderou até a beira do abismo está ameaçada. Ele nega, mas intimamente sabe se sua responsabilidade pelo caos, consequência direta de suas decisões e escolhas erradas. Algumas propositais, mas não seguiram o roteiro que ele imaginou.

Agora ele e sua fiel equipe estão para receber uma resposta. Não são mísseis balísticos intercontinentais. São apenas salvaguardas do sistema e dos significados estabelecidos que, traídos, estavam reagindo contra os incontáveis abusos. Já que o caramujo chefe não conhecia nenhum abrigo nuclear ou convencional foi obrigado por puro instinto a se locomover de volta ao seu nicho original depois que o “fracasso lhe subiu a cabeça” como vaticinou Millôr Fernandes.

Fez isso, pois considerou que sua única chance de escapar seria misturar-se com seu próprio bando. Em sua pusilanimidade imaginou que uma cortina de fumaça venenosa lançada entre a multidão criaria a confusão e o medo propícios para acusar os outros por seus desvios. O molusco percebeu que só a aliança com outros como ele, moluscos incompetentes e venais o faria voltar a liderar a parcela de lesmas incautas. A suposta homogeneidade o protegeria das sanções iminentes e deixaria toda a comunidade em duvida sobre sua participação direta na destruição do Caramujistão. O papel de vítima sempre lhe caiu bem.

Atingindo a velocidade de lesma na freeway sua caravana prosseguiu rumo ao seu objetivo, e recorrentemente desobedecia — como se acostumou nos anos em que reinou absoluto  — todos os sinais e todas as regras. Conservava na memória como escapou dos primeiros desastres enquanto uma legião de outros caramujos submissos o seguiam sem perceber que ele os conduzia ao desfiladeiro. Muitas outras lesmas enxergaram que era uma peregrinação para a morte. Mas o grupo alfa acostumado ao domínio subliminar, alugava antenas especiais e aprenderam a emitir sinais de comunicação que produziam interferências sérias a ponto de embaralhar a percepção dos demais.

Muitos seguiam avançando seguindo o molusco alfa para chegar até o outro lado da represa em sua saga para restabelecer o nicho perdido. Seu sonho agora se reduzirá a um só: safar-se vivo e impune pelo desrespeito a todos os códigos vigentes na constituição do Caramujistão. “Não é bem desrespeito” argumentou o mais grandiloquente dos moluscos, ex-chefe da casa pessoal do chefe: “Aliás, nós nem assinamos esse constituição”. Tratava-se, segundo ele apenas de “considerar um raciocínio paralelo onde transgredir as normas contra tudo que está aí, é apenas um ato lícito de uma mente progressista que adotou uma compreensão paralela de mundo”.

Já o menos intelectual deles gritou aos demais palavras de comando e slogans e avisou que valia a pena o risco de se deslocar em área tão perigosa mesmo que cheia de outros artefatos ameaçadores com potencial esmagador. A caramujo fêmea chegou a considerar que se um companheiro lesma sucumbisse durante a travessia poderia ser até produtivo.  Já que eles afirmou, “vão ter que matar a gente” e será “com essa gosma que levantaremos a massa de moluscos alienados contra o imperialismo jurídico burguês’.

Os caramujos mais moderados que, no passado, já haviam se indisposto com o chefe — e por isso caíram em desgraça — tentaram, em vão, interceder para impedir que o inimputável planorbídeo convencesse sua legião a expandir o sacrifício da nação caramuja. Começaram a desconfiar que ele e os seus eram os únicos beneficiários da proposta de suicídio coletivo. Tribos de caramujos que orbitavam o poder, alimentando-se dos resíduos se sentiram culpadas pela vulnerabilidade do grupo e, por cumplicidade, tratavam de endossar o peculiar método filosófico adotado. Chegaram a fazer coro “que o caramujo alfa tinha compromisso e história”. Foi então que o pseudo alfa, sob os aplausos do séquito de moluscos hipnotizados, bradou sua inesquecível frase

“Eu sou o País” e “Sem mim, todo páreo é fraude”.

Foi quando um discreto caminhão betoneira com placas de Curitiba — cujo número não foi divulgado — passou nesse exato momento em baixa velocidade pela estrada. Acabou triturando involuntariamente aquela geração de lideres da comunidade de lesmas empastelando-as uma à uma contra o asfalto sob seus pneus aro 55 de 100 quilos cada.  Mesmo com o som das carapaças se quebrando o transito fluiu bem e seguiu imperturbável como se nada estivesse acontecendo.  Estranhamente, todas as lesmas saíram ilesas abandonando às pressas suas carapaças num estranho salve-se quem puder. A maioria da grande comunidade de caramujos que observava tudo atenta do outro lado da margem, sobreviveu. Passado o trauma todos relataram uma sensação similar: é como se tivessem acordado de um transe, com o pesadelo já terminado. Ninguém soube onde foram parar os restos de casca do molusco alfa, mas legistas encontraram suas antenas com nítidos sinais de adulteração. Até hoje, ninguém da comunidade de lesmas reclamou os restos. Circulam teorias conspiratórias de que ele vive disfarçado de uma outra ordem, a das teuthidias, num paraíso fiscal, sem acordo de extradição com a nação caramuja.

 

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