Da ignota culpa do cidadão

Paulo Rosenbaum

17 Julho 2016 | 20h09

 

Já carimbou? Pois não? O que nós, o Estado, precisamos te relatar? Agora é oficial. Terás que conviver com o terror, aceitar a usurpação, renunciar à integridade, rejeitar a transcendência e submeter-se à imanência sem consistência. Nem notaram? Já estão rendidos. O trator pode parar. Vossos corpos, ceifados, prontos para as empilhadeiras. Se não fosse Nice seria Jerusalém, Orlando ou Dacca. Por que insistir neste tema? Ainda acham que vosso infortúnio é pertencer a essa geração? Céus, é claro que não. E quanto às crianças? Elas, que nem tiveram essa chance? De escolher se queriam pertencer. Não nos cabe responder. Como você deve intuir nós não somos responsáveis por muita coisa além da arrecadação.

Esgotadas as possibilidades de qualquer coisa estável,  reduziremos tudo às oscilações. Ao progresso que se conserva. À conservação do nada que progride. Uma instabilidade é só prenúncio, quando vezes já repetimos. Vocês não assistem programas partidários?  E a velocidade digital e os artigos descartáveis? E as facilidades do desconhecido? O xadrez impessoal das Potencias? O núcleo duro do inadiável? Como vocês devem saber essas radicalizações rápidas não se curvam e ninguém mais pode decidir sobre nada seja quem for eleito? Alguém capturou o espírito destes tempos? Terás que compartilhar o horror. Viverás num estado de animação suspensa. Não te será concedida trégua e ainda assim serás coagido a reconhecer nossa hegemonia. O mundo não era má ideia, mas agora, convertido, tornou-se compassivo com os crimes. Nosso delito tem uma vantagem. Insuperável. Podemos nos perdoar ou mudar de discurso, tanto faz.

As vítimas? Ora, são culpadas involuntárias por algum delito, da indiferença social à ganância. Do indesculpável aval à prepotência do passado colonial ao segregacionismo racista. Atenuantes? Tente outra saída. Sempre acharemos um furo para os seus álibis.

Vosso destino? Serão explodidos, envenenados, bombardeados e manietados por uma destas causas ou todas elas em conjunto. Quem se importa? Você que não deu abrigo ao refugiado, que não foi solidário, que não fez doações, também não escapara do nosso radar penitencial. Se tiver a oportunidade de ser trucidado, desconfie de você mesmo. Se quiser achar teu algoz culpe sua natureza egóica insanável, afinal foi ela quem te colocou no paredão.

Cidadãos, ouçam, não é nada pessoal, mas este Estado aqui não mais te protege. Decidiu que têm muito mais o que fazer. Não se ofenda. É que elegemos outras prioridades. Por que você não foi consultado?  Você sabe distinguir a causa justa das suas necessidades pequeno-burguesas? Não? Pois é, por isso mesmo tomamos as rédeas e decidimos quais causas merecem precedência. Vamos resumir para que o Senhor entenda e memorize de uma vez por todas: o sujeito individual perdeu a importância. E o interesse. Deste ponto em diante nós só lidamos com multidões, rebanhos e lobos solitários. O Senhor vai insistir e protocolar uma reclamação? O nosso SAC encontra-se indisponível. Tente depois das eleições, até lá teremos novidades no guichê.