Bauman e o impreciso ponto de sublimação

Bauman e o impreciso ponto de sublimação

Paulo Rosenbaum

13 Janeiro 2017 | 06h38

Gôndola em Canal de Veneza

                                                                                                                                  Gôndola em Canal de Veneza

Não te disseram? Que havia mais de um ponto de fusão? Que a ebulição poderia ser adiada? Que há um estado que não é intermediário? Que tempos líquidos são outros? Aqueles que ainda não chegaram? Estamos juntos. Juntos, mas perdidos, entre um e outro mar. Mares que não fecham, que não criam, que apenas vivem, e, por isso, afastam as estações, arrastando invernos. Mares que não pensam, nem tomam desprezo como questão pessoal. Estamos sós neste fragmentado pátio de manobras. Como pianos sem cauda, melodias sem contrastes. Se há uma causa? Nossos destinos incertos desacertando as veias, o descompasso das margens, as beiradas. Hoje, navegamos pelo mesmo canal, tive a alegria da incerteza.

Foi quando acordei para o gondoleiro soando a voz:

“Oiiiiiiii”- Oiiiiii”

Era esse o aviso, ele vinha. Aqui, ou em Veneza, canais sobem e descem, nunca esvaziam. Canais mudam de sentido a cada instante. Em suas esquinas, colisões seriam certas e inevitáveis. Com as casas submersas ratos precisaram adaptar o instinto, nós, ainda roemos por vingança. Quando a sublimação perdeu-se na imprecisão e pulou o estado liquido, nossos olhos não puderam mais conversar. Você foi embora antes que eu pudesse te mostrar a instabilidade das águas, a sonoridade dos remos, a vacância da luz, as ondas insistentes, o deslocamento dos pontos fixos, a luz férrea dos cabelos, a qualidade dos vinhos e o ar suspenso.

Você sumiu antes que eu pudesse dizer uma palavra sobre o instável ponto da sublimação. Antes que eu pudesse retornar para jurar que há um valor sequer mencionado. Estamos diante do por do sol único, o por do sol da lua. Apenas ontem os cientistas confirmaram a autonomia do satélite. Só uns poucos desconfiavam: a Lua jamais fez parte da Terra. Se você tivesse ficado eu teria te mostrado como o mínimo contrapeso faz oscilar, como só os lábios alcançam o balanço. Não pense que não compreendo. Entendido: seu olhar despede-se a cada manhã. Sem que eu escape do instante, sem que eu te olhe a sós. Por que tuas mãos sempre apontavam para cima? Devo esperar o céu inteiro ou fazer descer teu palácio? Encomendar as cadeiras para tua dança ou molda-las ao teu convívio? Não sei se consigo enxergar tempos líquidos. Se o sociólogo compreendeu a generalização, o poeta escolhe exaltar o próprio de cada relação.

Não sei, nunca soube, devemos aceitar os sentidos comuns? Se a história é inconcebível, o que de especial dela escaparia? Qual a graça se o padronizado vencesse? Ou se vigorasse a rotina do cronometro? Ou o triunfo da constância? Nenhum autor convence. Por isso, doei um sopro ao vaporetto que me embalava pelo canal. Não é para provocar. É que só hoje senti: Veneza é um múltiplo distribuído pelo mundo. O mediterrâneo inteiro te deixaria surpresa, mas estar aqui muda tudo. Foi por isso, só por isso, que te deixei partir. Enxerguei em tua liberdade a chance de amar. E hoje, que todos os jornais assinam com tintas distantes, que as tipografias ameaçam parar, que os livros impressos narram o refluxo, e que o espirito parece se comportar com a extravagancia das certezas, justo hoje, voltei para reafirmar: estamos vivos num outro presente. O vapor que você acaba de inalar é essa certeza. Só conto com ele para te prometer que, sem nada sólido à vista, renegaremos também o transitório.

Voto em transformar toda efeméride em ofício sagrado, e o presente, a sublime prova de nossa permanência.

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