Carta para Rosa

Carta para Rosa

Paulo Rosenbaum

06 Abril 2013 | 22h13

 

“A violência nos interpela a todo momento. Assaltos, homicídios, sequestros, etc. dominam o cotidiano dos cidadãos em todo o mundo. Na mídia eletrônica e nas redes sociais imagens de guerra no Afeganistão ou na Síria irrompem em tempo real. Esse cerco nos obriga a entender o passado, analisar o presente, muita vez com a tentação de prever o futuro.”

“A simples ideia de que houve um declínio de violência no mundo parece um tanto excêntrica quando o que se vê é o crescimento da intolerância. Seja a guerra atômica com a qual o ditador da Coreia do Norte ameaça o resto do planeta ou a volta de bélicos discursos nacionalistas, a humanidade parece ter mais motivos para se preocupar com a violência do que celebrar uma vitória contra ela.”

 

Caro Rosa,

Espero que esteja bem e na santa paz. Desculpe a indelicadeza na demora em responder sua última missiva, modo de dizer, aquilo era um verdadeiro questionário! Dá tanta vontade assim de saber o que vai por aqui? Estava procurando me informar melhor sobre aquela expressão que te deixou curioso no jornal, em tuas palavras, “atiçado”. Você não se enganou não, era esse nome mesmo: “bônus anticrime”. Pelo que apurei é só um soldo extra para os serviços de segurança que solucionarem mais crimes.

Concordo, é um nome pouco estético. É que você não imagina com o que temos nos acostumado.

Na última carta, que sempre leio e releio, fiquei em dúvida naquele pedaço, quando você repete mais de uma vez – e sublinha na segunda e terceira vez – que “viver é perigoso”. Mas Rosa, se for tal qual, o que nos resta além de uma vida resignada, amedrontada, esquiva?

Como colega médico, você sabe que as vezes a ciência nos dá a maliciosa ilusão de que temos controle de quase tudo. Surgiu um psicólogo famoso, dizem que é uma das pessoas mais influentes do mundo, que agora afirma (sabe como eles arredondam as estatísticas) que essa é a era onde há menos violência no mundo. É um tratado que vêm sendo bem recebido pelo público e pela critica, mas ele é um psicólogo “baseado em evidências”. Ele é quase unanimidade. Eu desconfio. Sabes como sou arredio às conclusões peremptórias, ainda mais baseadas em manipulação matemática. Será que ele nunca leu a máxima de Claude Bernard de que “a estatística é uma verdade para o geral e uma mentira para o particular”?

Estou convencido que sabemos pouco e controlamos nada ou quase nada. Que mortal sabe qual seu devir? Quem pode prever os próximos meses, dias, que seja cinco minutos?

Eu gosto do escritor que honra a camisa e prefere desafios não sentenciosos, dá as costas ao senso comum e sempre debocha das previsões. Mas quem sabe ele tem razão e a Coréia do Norte e todas as regiões em conflito sejam pacificadas. Vamos ver. Uma coisa garanto, ele não visitou nosso Brasil.

Vou tentar lembrar tudo de cabeça e te atualizar sobre as coisas: agora eles dizem e parece que é verdade, que dentro dos telefones e computadores temos “redes sociais”. Pelo que vi daqui em diante a vida vai correr por lá. Cá entre nós e que não nos ouçam; são puças pega-trouxa. Estão todos viciados nessa embromação, até velhos. Isso é complicado, mas fica para outra carta.

Na política fica evidente que não só viramos fanáticos por incoerências como ostentamos claramente isso na representação parlamentar. Voce queria saber o estado da arte, pois vou te atualizar: nosso futuro vai deitando nas mãos de pastores, radialistas e ex-jogadores de futebol. O problema não é de classe social já que o Congresso, Câmara e Senado, sempre foi dominado por oligarquias e profissionais liberais e como sabemos, ele é o que ele é.

Ainda somos o País da diversidade e a nação da transgressão. Nossa fobia é generalizada e invertida. Tememos organização e simetrias. Veneramos as disparidades de forma, conteúdo e renda. E popular nestes nossos tempos significa narcisismo premiado pelo sucesso instantâneo.

O problema é que todos eles defendem uma fé ignota. Ninguém entende bem o que querem. Estamos de mãos dadas, armados para o pior. O sustentável serve-se do insustentável. A profusão de contradições nos alçou à condição de candidatos naturais aos grandes troféus. Sim, mas é claro que nossas chances aumentaram. E um inédito Nobel poderá vir pelo conjunto da obra do povo brasileiro.

Eu sei, eu sei, daqui para frente sem mais digressões: mas preciso dizer ao Senhor que hoje em dia viver não é só perigoso, implica dividendos e correção monetária. O bônus está nos palacetes e no “alto padrão” que beira as orlas e os jardins. Você desmaiaria se visse quanto vale um quarto e sala. Andei tendo ideias persecutórias. Quer um exemplo? A desigualdade abusiva foi criada com o propósito de atormentar quem quer justiça.

Juro que segui aquele seu ultimo conselho e tentei alternativas para driblar o pensamento circular, mas, Rosa, só pode ser isso mesmo. De que outra forma explicar que todos eles fecham as cortinas enquanto detrás delas há uma pintura sem graça chamada “degradação”? Aposto que você terá outro parecer, decerto mais elegante e criativo.

Por aqui só está tranquilo quem tem milícias privadas para se proteger. Blindados em colunas e cassetetes estão reservados para desabrigados, insatisfeitos e desafetos políticos.

Isso enquanto o ocioso Estado contempla a epidemia de arrastões e anarquia. Só para garantir ter sido bem compreendido, me refiro a um novo tipo de pescaria urbana. É uma metáfora para invasão que os gatunos fazem para rapar prédios inteiros.

Querido amigo, se permitir faço as últimas digressões, prometo. Posso testemunhar e aceito uma sova se exagero: está tudo tão enroscado na ineficiencia e na burocracia (a corrupção é um detalhe) que hoje ninguém mais acredita em projetos e metas.
Se houveram avanços sociais? Mas é claro que sim. Só que eles não duram e quando duram desmoronam logo.

Pensando bem talvez o Senhor tenha mesmo razão acerca do perigoso. Aqui se mata por tudo, a torto e a direito. Nem o interior escapou, o grande sertão e sua Minas Gerais inclusive. Se o poder privado é essa água, quem disse que se pode confiar no gestor público? Se ele é pior? Pior, muito pior. Isso tenho certeza, você chamaria as campanhas políticas de cópias da técnica nazi de propaganda que você viu de muito perto. Não, não só não é proibido, como hoje se chama marketing político, está legalizado e é muito bem pago.

Sobre os partidos? Tinha planejado te poupar. Pode falar no singular: um partido. Eles se fundiram e estão todos aglutinados, virou uma massaroca só. De dois em dois anos eles colocam os dentes postiços à mostra e fazem o que for preciso para faturar as próximas eleições.

Eu sei que prefere as boas novas. Garimpando bem elas até que aparecem. Posso dizer que estamos abertos à ingenuidade (sei que você sempre encontrou virtudes nela), e andando por aí ainda se encontra camaradagem. Fazemos de tudo por turistas desinformados, devolvemos dinheiro jogado no parque, sorrimos desdentados, moramos em palafitas, fugimos dos soterramentos, batucamos nas filas, fingimos que não há guerra e sobrevivemos com nada. Nada. Isso é igualzinho, exatamente como na tua época. No fundo, intuíamos, todos aqueles slogans nunca foram para valer. Não só a fome não é zero, como os tijolos da solidariedade nunca existiram nas olarias do Estado.

Querido compadre, não quero te aborrecer mas para quem mais eu escreveria?

Antes que você arquive este papel, preciso dizer que isso não é o que você uma vez chamou de “catálogo de lamúrias.” São pedacinhos da realidade cá de baixo.

O pior é que ainda existe uma esperança, chega a ser irritante. Se estivesse tudo perdido a adaptação seria mais suave. Esta esperança chega bem de manhã e não desce nem com o sol oblíquo dos trópicos. Eles são tudo, menos tristes. Aprendi contigo: nas pequenas gentilezas, e nas alegrias sem sentido que ainda podemos respirar.

Saudades suas!

Quando é que vêm nos visitar?

Abraço forte,

P.H

 

Cada notícia tem desdobramentos. Sob a forma de conto, prosa ou crônica a exploração imaginária de um fato é a proposta de “Conto de Notícia”. Via de regra, o link para a publicação que deu origem ao texto encontra-se acima do post.