“Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold

“Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold

Paulo Rosenbaum

09 Novembro 2017 | 10h48

 

Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold

“Uma descida sem cordas rumo ao mais profundo mistério da existência humana”

“Céu subterrâneo” do poeta e romancista Paulo Rosenbaum é um convite a participar de uma jornada única muito especial. A obra, profundamente existencial, enquadra dentro de um gênero policial pouco comum, que mistura memória e identidade, existência e destino do ser humano. A ideia de criar um comum denominador entre o passado de uma cidade e a “psique humana” (já comentada por Sigmund Freud em O Mal-Estar na Cultura); é um grande desafio para poucos escritores.


A Roma nascida da lenda de Rômulo e Remo, ou a Jericó de muralhas impenetráveis; emerge na obra de Rosenbaum das ruínas de Hebron, uma cidade conflitiva situada nas montanhas da Judéia a 40 quilômetros de Jerusalém. A sua santidade é resultado de dois fronts: uma narrativa de massacres e uma batalha permanente para obter a posse daquele lugar. Em Hebron, lugar denso, localidade repleta de histórias; paira um ar de mística e esoterismo. Trata-se de um dos pontos geográficos mais antigos do Planeta, o sitio em que foi registrada a primeira transição comercial da história por Abraham, pai de árabes e judeus.

Efron ben Tzohar vendeu a gruta Makhpelá ao Patriarca Abraham por 400 dinares. A fortaleza herodiana composta de uma muralha retangular passou a mãos bizantinas em 614 (virando basílica), para logo acabar em poder dos árabes em 637. Os cruzados os derrotam em 1.100, mas os muçulmanos a recuperam em 1.188 com Saladino, transformando-a em mesquita. No século 13, tribos de mamelucos proíbem a entrada de não muçulmanos no recinto sagrado; uma proibição ampliada após 1929, agora durante o Mandato Britânico da Palestina.

O atrativo turístico de Hebron não era a cidade, mas a Makhpelá, o “Túmulo dos Patriarcas”, onde pela tradição judaica estariam enterrados Abraham e Sara, Isaac e Rebeca, Jacó e Léa. Para Há fontes menos fidedignas que incluem os sepulcros de Moisés e Tzipora e até de Adão e Eva. Segundo o “Sêfer Hazohar” (Livro do Esplendor) atribuído ao grande sábio R. Shimon Bar Yohai, na Makhpelá estão dispostas as portas para o “Paraíso de Alto”; deixando ainda em aberto a oportunidade de uma pessoa justa entrar no “Paraíso de Baixo”.

No texto de Rosenbaum, Hebron é o segundo lugar sagrado, seu ar místico é um ponto nevrálgico de animosidades, afinal qualquer fagulha pode ascender os brios entre árabes e judeus. A Hebron de “Céu Subterrâneo” abriga numerosos jornalistas e observadores internacionais. É uma cidade que, teoricamente, havia superado os traumáticos “Acordos de Oslo” em 1993, o trágico assassinato do Premiê Itzhak Rabin em 1995, o expansionismo xiita e até a “Primavera Árabe” iniciada em dezembro de 2010.

Nessa Hebron toda contemporânea aparece o protagonista de “Céu Subterrâneo”: o psicólogo Adam Mondale, um judeu laico especialista em comportamento animal, destituído do cargo de diretor de uma renomada universidade brasileira, aposentado precocemente para embarcar em uma aventura ímpar: buscar o significado oculto de uma fotografia pouco nítida hospedada faz algum tempo numa máquina Polaroide.

Adam Mondale apresenta digressões com relatos de sua família. Nele desfilam sua esposa, seu sogro, pais (escravos da indústria automobilística alemã, sobreviventes do Holocausto), a ditadura no Brasil, as pesquisas acadêmicas e, naturalmente, seu desejo de tornar-se um reconhecido escritor. Para Berta Waldman, Titular do Departamento de Literatura Hebraica da USP, Adam Mondale é o alter ego do autor, contemplado com uma bolsa a Israel para pesquisar material e escrever seu próximo livro.

O tempo em que transcorre a jornada de Adam Mondale não é cronológico. Suas aventuras começam em Jerusalém com a dificuldade para falar o hebraico, a conversa com o taxista que o deixa em plena madrugada na rua, as malas difíceis de carregar, o precário apartamento alugado pela internet (a falta aquecimento na moradia), e a vontade de Adam de adaptar-se para que tudo na viagem desse certo.

No primeiro dia, já instalado em seu apartamento, Adam viaja de taxi a um laboratório fotográfico especializado em revelações de todo tipo. Ali ele entrega um negativo que poderia guardar parte de uma imagem original. O que conteria teria essa imagem? Pois é essa imagem o núcleo da trama, uma mescla de mistério e suspense, um misto de enigma e segredo.

A tal imagem é da Makhpelá, porém ela precisa ser decifrada. Que há de oculto na Makhpelá? Parafraseando Shakespeare: To be or not to be? Eis a questão… Uma foto ou um documento podem tirar qualquer pesquisador do anonimato ou do limbo da mediocridade. A santidade de Hebron afeta mentalmente o protagonista. Adam está ciente da importância do lugar e isto o deixa perplexo, atônito e eufórico na sua constante busca. Não é exagerado afirmar que elucidar o que há na gruta da Makhpelá passa a ser a obsessão final do personagem.

O interlocutor imaginário de Adam Mondale é Assis Beiras, a quem destina suas reflexões metalinguísticas: “Se há alguma função para o escritor, só pode ser fazer com que o leitor se afaste do método e seja tomado pela imaginação. Tomado. Só assim, com a função da razão pura suspensa, a história funcionaria como uma vida à parte. Só assim poderíamos circular entre os dois mundos, do autor ao leitor”. Convenhamos que esta nobre proposta do autor  não é nada fácil de concretizar; uma vez que cada um de nós, (pobres mortais), mal sabe caminhar dentro de seu “mundinho real”; totalmente condicionado e delimitado por necessidades básicas.

Berta Waldman explica: “na tradição teológica judaica (especialmente na talmúdica, ligada à lei oral), a interpretação do texto não visa apenas delimitar um sentido unívoco e definitivo; ao contrário, o respeito pela origem divina do texto impede sua cristalização e sua redução a um sentido único. Assim, o comentário tem antes por objetivo mostrar a profundidade ilimitada da palavra divina e preparar sua leitura infinita, para gerar novas camadas de sentido até então ignoradas”. Para ela, “o midrash contem, assim, um sentido que não se fixa. Como não se fixa, no sentido de não se definir exatamente, a imagem a partir da decifração do que se oculta na Makhpelá. A imagem suja, precária e indefinida é identificada como uma possível fonte primária…”.

O livro “Céu subterrâneo” nos mostra que a interpretação midrâshica não é a única possível. Eu mesmo entendo ser mais apropriado fazer uma leitura pós-moderna, na qual a superposição de tempos do romance, o mundo imaginário que surge em torno do psicólogo Adam Mondale, o mistério oculto a ser desvendado e a realidade volátil (em choque permanente com a existência cotidiana), geram um clima em que o homem convive com um universo de ícones e signos que pedem esclarecimento e elucidação de um sentido.

“Céu Subterrâneo” de Paulo Rosenbaum é um convite para viajar no túnel do tempo. É um livro para tentar resgatar a camada oculta de nossa existência e, acima de tudo, para “escapar” (mesmo por algumas horas ou dias); de nosso repetitivo e muitas vezes monótono mundo cotidiano. Leitura instigante e cativante, o romance é uma “descida sem cordas rumo ao mais profundo mistério da existência humana”.

Reuven Faingold é historiador e educador; PhD em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. É também sócio fundador da “Sociedade Genealógica Judaica do Brasil” e, desde 1984, membro do “Congresso Mundial de Ciências Judaicas” em Jerusalém. Atualmente, é o diretor dos projetos educativos do “Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto” em São Paulo.