Dicionários no Paraíso

Dicionários no Paraíso

Paulo Rosenbaum

31 Julho 2013 | 13h48

 

 

Jorge Luis Borges: Conferência sobre a Divina Comédia

 

 

 

Dicionários no Paraíso  

 

 

Há quem imagine o paraíso como jardim, outros preferem o palácio de mármore branco ou pátios brancos vazios, alguns, entre os quais Jorge Luís Borges costumavam imaginar o paraíso como uma biblioteca.

 

Em uma palestra de 1977 sobre a “Divina Comédia” de Dante Alighieri, o escritor argentino menciona que, segundo os cabalistas hebreus, a Bíblia foi escrita com a polifonia mais radical já concebida: qualquer palavra parece conter uma mensagem pessoal para cada sujeito. Isso só seria possível se concordássemos que o autor das Escrituras, sendo quem é, alcançou a proeza vedada aos escritores: a ciência da singularidade absoluta.

 

Considerei seriamente antecipar quais seriam os títulos prediletos de uma biblioteca pessoal no mundo porvir. A maioria daria preferencia a uma estante eclética, com um pouco de tudo, mistura de tomos clássicos e títulos curiosos.

 

Mas o livro essencial, aquele que sempre fará a diferença independentemente de cronologia, editor e autoria, será aquele que nunca estará completo. Onde não há espaço para a página perfeita nem a última palavra.  

 

Se tivesse que optar entre milhões de exemplares decerto escolheria a estante de dicionários. É que nele, numa combinação volúvel e polissêmica, estão contidas todas as perspectivas. 

 

Vejam que lá o impossível dá um basta ao senso comum, despreza o unívoco, impõe  ilimitada diversidade e convoca todas as definições, das imprecisas às usuais. O dicionário é, portanto, dentre todos, o mais poroso e o menos acabado. Ali não só não há oposição como estão entrelaçados erudito e popular. Em suas folhas – sim, mas é claro que falo de papel — pode-se encontrar raiz, rota e desvios do mundo. Ainda que evoque a paternidade dos burros quem, senão ele, apresentaria a língua de maneira tão controversa?

 

O dicionário é uma fragata indigente, se alimenta de tudo que vê pela frente nos portos que atraca. Ainda que o lexicógrafo não passe de um organizador, a generosidade dos verbos permite  que se apresentem desdobramentos, insinuações e originalidades desconsertantes.  Por isso, qualquer ode ao dicionário será sempre impessoal.

 

Lá dentro, todas as formas literárias trocam de papéis, experimentam arranjos e improvisam cenários.

 

Acredita-se que livros tenham vontade própria. O sonho do dicionário é ser esquecido à noite. É quando reformula o significado de velhas palavras.

 

Só a solidão consegue liberar da prisão os conceitos com que os teóricos das letras enjaularam as palavras.