Dignidade da Escuta

Dignidade da Escuta

Paulo Rosenbaum

08 Julho 2013 | 22h35

 


Estudante de medicina terá de atuar no SUS; entidades criticam

Cursos terão 8 anos de duração; representantes da classe veem proposta como ‘paliativa e demagógicaDescription: nício do conteúdo

 

Curso de medicina passará de 6 para 8 anos de duração a partir de 2015

 

 

As manifestações que esbofetearam analistas, estrategistas e marqueteiros ainda tentam conservar um pouco da aura romantica, mas naturalidade não é virtude conquistável.  Destarte, fica nítido que lhes falta a força de uma direção, de uma canalização mais eficiente. Como todos sabem, a perda do lirismo dá lugar a uma maior objetividade.

Melhor manter o charme da fantasia.  

Afoito, desmedido, inoportuno e seletivo o governo tenta reagir ao clamor difuso com soluços. Mas ninguém contorna inação, má gestão e desejo de hegemonia com medidas reducionistas.

Além das assincronias o que falta ao poder  é imaginação. A criatividade é que repercute nas expectativas das pessoas. Sua falta exaure até os mais ingênuos.

Sem perspectivas, ainda estamos à mercê de acordos feitos nas cúpulas. No lugar da verdadeira escuta os diálogos privilegiam movimentos organizados, sindicatos e partidos. Faltou só o principal:pessoas comuns, resgatadas da pobreza, recolocadas no cardápio social, e que, agora, desejam algo além do paternalismo subserviente de Estado. O desejo de consumo premente passou a ser item escasso no mercado : a dignidade da escuta.

Uma vez que ela, a escuta, foi esnobada, esperava-se um enfoque suprapartidário e transgovernamental. Também não aconteceu. O partido não permitiu. Pactos que se costuram sob interesses só fazem aumentar o combustível para os desvios. E o mal estar não se cala quando se pressente manipulação, ele se descontrola.  

Passar cursos de medicina para 8 anos ao invés dos 6 atuais é o espelho perfeito da cadeia de equívocos. O motivo alegado agora não é mais aquele original, ou seja, a de que não seria para suprir a falta de médicos mas de impedir ou desestimular a especialização precoce. Ora, a especialização precoce tem causas com raízes mais infiltradas que não se resolvem com as canetas alienadas dos gabinetes de Ministros.

Essas mudanças erráticas e a sistemática repetição de improvisos além de não inspirarem seriedade desnudam a falta de planejamento de longo prazo e mostram o desespero para alavancar candidatos a qualquer preço.

Mudar a mentalidade de formação precoce de especialistas é estimular a medicina preventiva e melhorar as condições de trabalho dos clínicos gerais. Como justificar isso quando se construiu por aqui o mito de que mais saúde significa mais hospitais, medicamentos subsidiados, disponibilidade de exames e procedimentos de alta complexidade além de clínicas especializadas com pesada hotelaria?

Mudanças deste porte demandam tempo e acordos. Portanto dependem antes de mudanças profundas e estruturais nos currículo das escolas de medicina e talvez até de uma mudança na mentalidade. Refiro-me à educação em saúde da própria  população.

Enfocar a atenção primária e um atendimento menos hospitalocentrico são as verdadeiras prioridades.

O estimulo a formação de cuidadores não médicos, implantar a Política Nacional de Praticas Complementares — já aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde — e enfrentar os grandes interesses econômicos que comandam a saúde suplementar no Brasil seriam outras medidas possíveis.

Para isso não seria necessário só aumentar os já longos anos dos cursos médicos, nem obrigar os estudantes a estagiar dois anos de SUS para obter trabalho médico a baixo custo.

Oferecer formação mais adequada pode passar por melhor remuneração de professores, além do ensino de humanidades num ano básico para todos que aspiram trabalhar nas áreas de saúde. Se provas de aptidão são de difícil execução podemos pensar em estimular habilidades. Não seria má ideia desenvolver os cinco sentidos. Estudos apontam a qualidade da escuta como um das principais critérios de qualidade no atendimento. Isso é arte, mas também técnica. Ainda hoje, na França, vários cursos de medicina oferecem aos alunos de medicina aulas de desenho como matéria obrigatória. São exemplos de como a criatividade pode ser uma tecnologia simples.

Numa sociedade mediada pelo tempo seria fundamental repensar a escuta médica e estimular que os graduandos revalorizassem a relação médico-paciente.  

O programa de saúde da família, uma das iniciativas mais bem avaliadas pela população é um exemplo bem sucedido de que é possível encontrar soluções sem rebuscamentos, truques ou invenções frívolas baseadas no imediatismo.