E não te basta viver?

Paulo Rosenbaum

26 Maio 2017 | 18h36

Hoje você passou, nenhuma névoa se dissipou, mas tua mão acenou. E dai que o País está assim? Nós? Nós não estamos assim. Vivemos apesar dele, apesar de todos eles. Eles não são alicerces de nada. Esqueça a pressão, fuga, denúncia e concentre-se na poesia. Desconcentre-se na poesia. Mude de lugar a cada minuto. Este deslocamento não aliviará nada. As dores permanecerão. A decepção também. Mas o giro virá. O giro que permite ver o outro lado, e todos os lados, e as ruas em profusão, e as calhas mudas, a chuva de vento.

Eu te disse, e não faz muito: estamos juntos sem que você perceba. Sempre estivemos. Não há um fim para estradas, elas se dobram, mudam de nome, fixam-se em vias trifurcadas, mas não terminam. Tua dor é ver a bagunça, o caos induzido, a justiça escolhida? A minha é te ver sofrer por isso. Sempre foi assim. Nada mudou. O sem precedentes sempre teve precedentes. Tua vida não pode ser fixada por tabelas. Nem por enredos que não foi você quem escolheu. Não acredite em estímulos externos. Esqueça as manchetes. Concentre-se, mais uma vez, pela primeira vez, ao menos desta vez, nos detalhes. Nas pinturas não vistas, nos livros não lidos, na cor inexata de uma árvore. Não, isso não é meditação. Apenas uma ação para te tirar daqui. A Terra já é vasta. Muito mais ampla que tua imaginação. Esqueça o Cosmos enquanto você pisa no chão. Apague os buracos negros e enxergue a gruta. Abaixe as pálpebras e esqueça o Paraíso distante, o perdido, o resgatado. Atenção ao implausível. Essa grama ai, essa que você pode sentir sob os pés. Essa mesma. Ela não sumirá, nem o céu, nem o ar. Não sumirá agora.  Este céu irrepetível que muda no instante. Ao gosto aleatório de dados que não param. Tire o dia para não conferir nada.

O sabor da lembrança é uma fruta nem vista nem provada.  É um lugar que você nunca pisou. Uma trajetória da qual você não tinha, nunca teve, a menor ideia. Era para te levar mesmo a um outro lugar, e, num átimo, mostrar porque não podemos ter apegos.

Errática?

Pode ser

A alienação programada. Com tantos probos, ilibados, figuras notórias mostrando o rosto insinuando modestia. Conforme repetiu Montaigne;  e não te basta viver? Isso. Serão só alguns momentos com o si mesmo. Sem ligar nada. Sem precisar de nada. Sem mergulhar em nada que não seja um alongado agora. Exato, aniquile as nostalgias antecipadas. Nem finque pé em nada. A redoma serve para isso, mas quem falou em redoma? É só para aprender a viver sem eles. Mas, ao mesmo tempo, não abandonar a coragem.  A coragem é a garantia. Não me refiro ao heroísmo infundado. Mas à reafirmação da honra, precocemente esgotada,  pelas ideologias, pelas insinuações de consciência, pelo simulacros de política.

Isso é política?

A coragem é a única garantia que temos para enfrentar tudo, se for preciso, contra tudo e todos. O tom da conciliação não é de capitulação. Mas de um tonus que finda toda hegemonia. O que recusa o binário sem aceitar pré condições. Homens que abandonam suas estrelas para entrar na maré perigosa.   Mas isso não é tudo. Essencial retirar-se de cena. Participar como sujeito é rejeitar tudo que é impessoal. Um patrimonio feito de estoicismo e transparencia. A bondade com estranhos, a gentileza irrefletida, a boa vontade laica.

A maioria é silenciosa, temos ainda que viver por nós mesmos. A solidariedade só pode começar com a dor do resgate. O amor, pela vontade de permanecer. O horizonte, pela fusão de perspectivas. Neste que é seu dia oriente-se pelo banco de areia e abandone o pó. Tua vida depende disso, todas dependem.

 

Salvar

Salvar