Eis o Rascunho

Eis o Rascunho

Paulo Rosenbaum

07 Maio 2017 | 13h24

 

 

Rascunhar: “fazer um esboço” XVI, Do cast Rascuñar. Rascunho XVII.  Do cast Rascuño. ( Cunha, Antonio G. Dicionário Etimológico)

O filosofo vaticinou a era: a do desaparecimento dos rascunhos. De fato, pareciam mortos, moribundos. Os note books, i-pads, processadores de texto, laptops e enfim os i-phones com seus aplicativos e parafernálias parecem tê-los sepultado sem as devidas honras. Também descobriríamos — como acabamos de ouvir do Ministério Público — a face sinistra dos rascunhos. A mandatária que deveria ter usado os canais apropriados como instrumentos legais para manter os assuntos sigilosos do Governo usava rascunhos para acobertar a pilhagem do Estado. Evidentemente, as páginas não oficiais já foram usadas na forma de bilhetinhos para encomendar assassinatos, geração de intrigas, lista de inimigos, obstrução à justiça, crimes comuns e outras morbidades políticas.

Mas o mais importante talvez não esteja, ainda que inestimável para discernimento, no caráter policial dos rascunhos. É que, sem eles, seriamos privados de notas em cadernos de campo, poemas rabiscados em guardanapos, ideias esboçadas em folhas avulsas com e sem pauta, anotações marginais em livros e versões prototipais muitas vezes surpreendentes. Tudo isso estaria perdido nos lixões.

Nos conformaríamos em ler somente as teses prontinhas, livros acabados, edições bem cuidadas, sem erros, sem lacunas, e principalmente sem atos falhos. Não perceberíamos tão bem  as metáforas obsedantes que perseguem a cabeça dos escritores, os equívocos depois reprocessados dos ensaístas, a permanente incerteza dos pesquisadores. Sem os rascunhos, não teríamos os cadernos de Darwin, os escritos secretos de Newton, as anotações de Gauguin, os desenhos criptográficos de Da Vinci, as duas preciosas versões do Grande Sertões de Guimarães Rosa (visite-os na impressionante Brasiliana Usp) ou os diários de Kafka.  A extinção do rascunho pode ter sido um golpe letal no que Carlo Ginzburg certa vez nomeou como paradigma indiciário. Ele nos conta que a elucidação da autoria de obras nas pinturas nas antigas galerias italianas — levada adiante através de uma metodologia proposta pelo médico forense Morelli e usada por Freud — estaria mais nos pequenos detalhes quase inimitáveis do que no “jeitão”, ou seja na tipicidade do óleo sobre tela. Tanto o  falsificador como o imitador esmeravam-se em copiar o estilo, vale dizer o estereótipo, e raramente se preocupavam com minúcias como sombra, brilho dos olhos, unhas, disposição das sobrancelhas.  Tivéssemos só tipografias limpinhas e impecáveis desconheceríamos livros com anotações e desenhos rabiscados dentro e fora do texto. Ignoraríamos, por exemplo, os escritos secretos simpáticos ao nazismo que Heidegger tentou em vão esconder na Floresta Negra.  Um dos mais recentes e importantes achados foi feito por George Koppelman e Daniel Wechsler e publicado sob o título “Shakespeare’s Beehive” (Colméia de Shakespeare) — ainda inédito em português — quando encontraram num depósito leiloado no Canadá um impressionante dicionário, o “Alviare” de 1580, com prováveis anotações manuscritas de Shakespeare.

A verdade é que, sem os rascunhos, estaríamos condenados à indesejável utopia que Jorge Luis Borges chamou de “la pagina de la perfeccion“. Ela não existe, mas não é que a pasteurização das edições tornou isso quase possível? Os exemplares saem já prontos, triplamente revisados. A indústria editorial e seus agentes esforçaram-se para torná-los inquestionáveis, assépticos, e sua higienização virou o símbolo de um produto quase perfeito.

Mas e se quiséssemos conhecer não só o item acabado? E se disséssemos que gostaríamos de saber mais das etapas, do processo mental de elaboração, de como os originais emergiam de forma bruta das cabeças dos autores? E se precisássemos de uma visão panorâmica das palavras desencaminhadas, das ideias perdidas, dos extravios  iniciáticos de cada artista? Seria uma imperdoável indiscrição? Uma curiosidade ilícita? Ou a inquietude intelectual nos autorizaria a investigar as referencias culturais que afinal nos forjou até o limite? E se a chave para entender a história realmente estivesse nos detalhes, nas omissões voluntárias, nos textos descartados ou destruídos nas lareiras e trituradoras de papel? Sem o rascunho estaríamos todos cegos aos devaneios, aos atalhos descartados, à intimidade desconhecida, à faceta oculta da imaginação.

De toda forma parece que O Rascunho insiste em sobreviver. E é por essa notável e contra-intuitiva persistência que recomendo a leitura e assinatura de um importante e resiliente Jornal de Literatura publicado desde 2000 em Curitiba chamado exatamente de “Rascunho”, eis uma amostra : http://rascunho.com.br/o-direito-ao-silencio/.

PS- Acabo de salvar este texto como rascunho.

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