Marsupial na orla

Paulo Rosenbaum

27 Julho 2016 | 14h52

Marsupial na Orla

Demorei muito. Já em Copacabana, achei que dava para parar de saltar. Os habitantes locais são muito simpáticos. Será que o pessoal pensa que fiz todo percurso na raça? Como o uber está proibido na cidade, tivemos que pegar táxi e veiculo leve sobre trilhos. Mesmo acompanhado do Phil, meu adestrador, as pessoas me olhavam desconfiadas. Pensa, ninguém sentou nem perto. Claro que me sentia discriminado, mas já me acostumei, vida animal é assim mesmo.

Queria uma treta, mas acredite, não havia vivalma disposta ao boxe. Será que eles sabem? Que sou amador e vim de longe? Vim nada, fui convocado às pressas. Nosso continente é maravilhoso, mas quando cheguei, perdi todo o fôlego. Que lugar: “a mais bela vila do mundo” como já escreveram explicou o Phil durante o nosso voo. Lugar lindo, mas em segundos, já percebemos que devia ser mesmo muito perigoso. Será que eles também tem crocodilos escondidos que aparecem de repente e comem pessoas?

Nenhum companheiro de espécie por perto, nem no zoo. Pensei cá com minha bolsa “você está sozinho nessa”. Foi quando resolveram me levar para me refrescar na orla. Sentei num banco bem do lado da estátua. Um humano magrinho de óculos, um poeta disseram ao Phil. Foi lá que pensei pela primeira vez: o que faz um prefeito? E ele nos chamou para o que? Me serviram uma taça na famosa confeitaria do forte e eu sai bêbado com todo aquele açúcar. Estava quase na hora da nossa audiência.

É claro que eu não queríamos nos atrasar. Pedido formal de desculpas para um símbolo nacional não é todo dia. Ainda mais como representante de uma espécie que tem um nome como o meu. Na verdade, “can-gu-ru” nunca foi o verdadeiro. Foi apelido, mas colou na hora. Decorei a história. Foi o seguinte: meu nome surgiu quando o capitão James Cook, o viajante, nos viu e perguntou ao guia aborígene: “o que é isso?”, e o tradutor verteu a pergunta para a língua nativa dos Guugu Yimidhirr. O guia, em dúvida, repetiu a pergunta algo como “não compreendo” ou “o que foi que ele disse?”. Quase ninguém sabe, mas foi assim que acabei batizado. Não consultei ancestrais para saber se a história procede, mas sempre ouvi que lendas não precisam da verdade.

Cheguei na portaria para o encontro com o chefe deles, e já nos deram um crachá. “Aguenta irmão, o homem ainda não chegou”. O porteiro deu uma piscadinha e quando perdeu o medo chegou mais perto do Phil e disse: lá na sua terra, já ouviram as gravações? Não entendi e ele me pediu para esperar e começou a rodar a conversa no smartphone. Ele começou a traduzir, mas eu nem precisava. Aquelas vozes, céus. Era entre dois chefes conversando. Já tinha ouvido Phil explicar que “políticos” são como “adestradores dos humanos”. Não sei quanto a ele, mas percebi que era roubada. Vozes são tudo para nós. Como se sabe, a linguagem dos animais é outra história, mas ninguém sabe do alcance do nosso ecletismo. Podemos não ter vocabulário, mas se há alguém que capta intenções somos nós. E eu pude sentir que aquilo era o que Phil chamou de “barra pesada”.

Esperei um bobeada do Phil, e me soltei da coleira. Apesar dos gritos de desespero cai fora. Pulei como nunca, achei a Vila e desviei de todos aqueles canos e fios. Voltei tremendo e me encolhi na minha confortável jaula. É verdade, ia sentir falta da delegação e ficaria sem assistir as lutas de boxe. Que os jogos deem certo, mas nunca senti tanta pena de humanos com esses seus horríveis adestradores. E o pior é que soube que eles é quem escolhem. Estranho, não? Can-gu-ru?

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