Metanoia

Paulo Rosenbaum

14 Julho 2017 | 18h19

Podem me acusar a vontade, não fui eu. Simplesmente, não fui eu. (alguém pigarreia na fileira lateral) É isso, cadê as provas? Ah, indícios, indícios não são provas. Evidências? Também não são. Anotou ai? O que? Não caros, já falei até para aquele senhor naquela República, eu só supervisionei as obras. Que coisa? O governo. Teve aloprado? Teve. Quais planos? A ideia veio aos poucos. Que alguém atire o primeiro barril de petróleo, mas o que eu fiz qualquer um no meu lugar faria. Minha consciência está tranquila, tenho lugar garantido na história. Como assim abuso? Como diz a nossa Professora de filosofia essa é a sua narrativa. A minha? Ora, a minha é simples. Desde que o mundo é mundo para corrigir as injustiças você tem que cometer outras. Não, não foi bola de neve nenhuma. Foi, foi planejado, mas não fui eu. Por que eu não assumo? Filha, todo mundo sabe que esse negocio de culpa não é comigo. Eu vivo do dia a dia. Planejamento, deixo para os outros. Sou bom de papo, todo mundo sabe disso. Como assim postes? Tenho culpa se gostam de quem eu indico? Tenho culpa de ser o mais carismático, de ser adorado por companheiros que ganharam muito comigo, pelo pessoal das comunidades eclesiais? Me diz que culpa tenho de o pessoal ai sair dizendo que eu era o redentor? Que sou a única salvação. Se acredito nisso? Vou te confessar que no começo eu achava exagero  mas você vai vendo que pode ser sim. E veja, não é falta de modéstia, é só ver o que o outro lá falou? Eu, “eu era o cara” lembram? (olha para os lados e todos juntos, em jogral espontâneo, soltam a gargalhada mecânica que cessa subitamente quando ele se volta novamente à jornalista) Se eu acho que eu sou o que acham de mim? Mas que pergunta filha. Bom, nunca na história alguém tinha feito os milagres que eu fiz. Eu fiz tudo, tudinho que está ai. Vai dizer que não tirei milhões do sufoco? E dai? perderam tudo pela incompetência. Mas eu…sabia, tinha certeza que você ia me perguntar isso. O desemprego? Quanto? 14 milhões? Eu fiz o País bombar, eu empreguei,  não acha que tenho direito de desempregar? Sou um patrão exigente caramba.  Quer chamar de milagre econômico? Pode chamar. Já falaram isso antes na ditadura? Menina, isso dessa crise passageira que está ai não fui eu. Isso foi ela, ela quem fez as burradas. Eu fui responsável por ela chegar lá? Eu só fiz a minha parte e o que minha consciência disse. É lógico que tinha que ter mudado a constituição para eu ficar direto, mas a gente tem que aturar esta lengalenga de democracia, e lembre que não controlamos toda a imprensa. (suspira fundo e fala sussurra uma palavra que foi entendida pela jornalista como “ainda”) Mas agora aprendemos a lição, da outra vez vai ser muito diferente. Eu obedeço tudo que ele, meu foro intimo me dita entende? Não, não é foro de São Paulo. Olha isso pessoal (vira-se para sua plateia) Ela é piadista. Está tirando comigo? Ah, você acha que eu mereço? Cana, cadeia? Foi o primeiro passo? E isso ai. Eu também acho que no fim, na última hora sai o acordo e fica por isso mesmo. Vai ficar todo mundo de cabelo em pé, mas ai, (aproxima-se como se fosse contar um segredo) aí a sociedade engole. Engole sempre, não é querida?

E o que eu quis dizer com o que? Ah isso? Eu disse isso, com estas palavras? “Quem sabe eu prendo ele depois? (olha para cima tentando evocar as frases feitas desditas) Sabe que sinceramente não me lembro (olha para cima, balança a cabeça e aponta para o próprio peito). É que num Congresso do partido e todos aqueles Sindicatos, a gente tem aquele carinho especial e se empolga. Os companheiros, gente que ajudei a crescer na vida, que dei aquela força, sabe como é que é.

Não sabe? Espera ai. (muda o tom de voz com uma rouquidão que o toma de assalto) Agora a senhora está sendo malcriada. Ah se ainda eu fosse presidente…além desse bico na Rede Esfera onde é que você trabalha mesmo? Por que? Se fosse em Banco ou em Jornal amigo eu ia ter que dar uns telefonemas. (olha para a sua equipe sorrindo a procura de um assessor de óculos e meio calvo) Se sou vegetariano? Este negócio da carne já deu. O que a senhora está olhando?  Quer saber por que tantos advogados aqui em volta? Só rico pode? Todo bacana tem direito e eu não? E eu vou lá saber quem banca, não mexo com isso, pergunta para o Alceu, o Vácar, é verdade, agora isso é com a Gláucia. Ela está bem ali, e aponta para a parlamentar que faz um gesto incompreensível de volta). Organização criminosa? Veja se não enche guria. (bufa contrariado) Eu sei que é uma entrevista, e dai? Meus advogados não te avisaram antes das perguntas? As respostas (bate com o dedo no papel de anotações da jornalista) eu quero ver antes de ir ao ar. (vira-se para outro assessor: você vê isso direitinho certo?) (resposta subserviente com o queixo)

E olha, comigo não tem essa de mulher independente. Como é que me sinto por ser réu? Vá…faz o seguinte, pergunte para o Papa filha. Tá bom assim? Não, não estou nem um pouco irritado pô. Eu não intimido ninguém não. Na eleição a gente conversa para você ver uma coisa. Quando eu estiver lá vou te chamar tá bom? Ameaça? Não, você entendeu mal. Quem sabe te dou uma exclusiva (dá uma piscada nervosa em direção a entrevistadora) Por que parar a entrevista? Estava ficando bom. (ameaça espreguiçar e enfia as palmas das mãos entre as pernas), Acabou?

Deixa que falar uma coisa: a senhora está aqui porque esta sendo paga, o pessoal da Esfera não te avisou? E quer saber? Anote ai. Tá escrevendo? Eu elejo quem eu quiser. Não mais? Por que? Porque meia dúzia de burgueses falam mal de mim nas redes sociais e batem panelinhas? Não estou nem ai. Eu não quis dizer nada. A massa está na mão. E fique sabendo. Que ficar quieto que nada. (afasta a mão do assessor que tentava interromper sua fala).

Cala a boca você. Aonde está aquele candidato lá do inicio? Sumiu, morreu. Que lulu paz e amor que nada, aquilo foi para a ocasião. Agora é para valer. (levanta e enxuga o suor frio da testa enquanto o advogado sênior cochicha algo em seu ouvido com o que ele aparentemente concorda e volta a sentar, trocando de feição)

Desculpe moça, (voz subitamente embargada) podemos continuar sim, é que eu me emocionei, a jornalista entende não? É muita pressão. (antes das lágrimas diluídas do olho esquerdo já empunhava o lenço de seda bordô). Falando honestamente, eu sempre confiei em vocês. Me desculpa. Não quis te estressar. Vamos fazer o seguinte, amanhã mesmo meu pessoal edita a fita. Eu falei perícia? Falei edita. Tá bom assim?  Antes de ir para o ar fale com o pessoal do Instituto e com os meus advogados Ok? Ainda está gravando? Pode desligar essa maldita câmera rapaz? A câmera hein, não a câmara. (riso indeciso) Então dona, foi um prazer falar com você. (ele se prepara para levantar)

Uma última pergunta? Claro. (senta-se novamente). Não tá gravando, certo? Ok.  O que tem este negócio de “nós e eles”? Fala a verdade, bem bolado, palmas para o casal de Feira. E o “coração valente”, essa foi de mestre. Foram condenados? Isso não tem a menor importância. Por que agora estou tão bem humorado? Porque confio na justiça do meu Pais. (gargalhadas espontâneas vindas de vários pontos do estúdio que só se interrompem com o olhar censor do entrevistado) Se eu não me arrependo? E o que é arrependimento? (bate a mão na própria perna e levanta-se sorrindo)

(ele sai abotoando e apalpando o bolso do paletó como se procurasse algo como um gravador chinês de U$ 35 acompanhado de assessores, advogados, motorista e copeira)

Regret – (english) Do latim gretan, chorar. Para o linguista e etimologista francês Littré a palavra vem do latim regradus (retorno) talvez de uma doença.

Metanoia – Do grego, arrependimento, remorso