Os Monstros e a naturalização do artificial

Paulo Rosenbaum

18 Fevereiro 2018 | 16h38

 

Parece que as sociedades estão desaparecendo aos olhos dos governantes. O poder, uma vez transferido através do voto tem virado tabu, e uma aura de intocabilidade passa a ungir a cabeça do agraciado no pleito. Está para além da imunidade parlamentar.

Segundo o juiz, criaram-se monstros, por acaso ele se referiu ao lado civilizatório da sociedade? Ou estará neutralizando — através de engenhosa manipulação da linguagem — , e de um inacreditável ataque direto à lava-jato, as barbáries que o petismo infligiu ao País?

O foro e tudo que implica aceita-lo é na verdade o verdadeiro Monstro inominável que o advogado omite. Trata-se de um sistema de autoproteção invencível, pois além de fazer as leis, ainda podem definir como e quem as interpretará. Ora, não é preciso ser minimamente sagaz para perceber que estamos diante de um absolutismo monopsista.  A Constituição federal fica assim reduzida ao tamanho desejado: um ardiloso jogo de palavras.

O professor de Cambridge acaba de vaticinar que o Brasil está sofrendo um processo de descivilizacao. A violência é o pivô da regressão. Não sei se é este o nome, mas parece que o conceito pode não ser mais ser desprezado pelas nossas elites. Cambridge, senhores. O que os gringos fora da imprensa engajada pró lulopetismo estão detectando é aquilo que a nossa cegueira não consegue admtir.  Estamos morando numa filosofia furada. E nós, todos nós, estamos apáticos com o que o poder se acostumou a obter de nossa estranha passividade:  a autoperpetuação fácil, e a naturalização das aberraçoes .

O que os defensores da solução defintiva insistem em nos fazer crer é que os problemas do País só se resolverão em bloco. Essa versão da realidade encontra adeptos em lugares heterodoxos, da imprensa ao alto funcionalismo público, dos políticos aos condenados em segunda instância. Sua síntese é a tese do Estado imobilista nas questões urgentíssimas como, por exemplo, algum controle sobre a selvageria que se espalha pelo Brasil.  Para eles, só se resolvem os problemas se formos a fundo em todas as questões. Desprezam o conceito da katastasis (sequência de eventos) que ordena a ordem da antiga sabedoria grega.  Destruir qualquer tentativa de restabelecer o dominio do Estado é uma jogada perigosa  Esperteza filosófica, sofisma, Ingenuidade ou desonestidade intelectual? De qualquer forma esta é a grande e mais artificial das mentiras com a qual temos sido reiterada e infantilmente iludidos.

Deixo aos  leitores as reflexões, mas, antes, faço um check list  do que parece insuportávelmente artificial em uma democracia representativa.

É artificial observar que os homens publicos ajam movidos exclusivamente por interesses pessoais.

É artificial que o Estado arrecade um volume de recursos assombroso e centralizador sem que ninguém fiscalize ocomo esses recursos são utilizados.

É artificial que o sistem jurídico tenha ingressado na política sem autorização da sociedade.

É artificial que os temas de segurança pública urgentes sigam obedecendo uma agenda ideológica povoada de tabus e principismos anacrônicos.

É artificial ter um parlamento que submete e é submetido à extorsão, chantagem e negociatas de ocasião e se recuse a votar já um projeto fundamental como a previdência.

É mais artificial ainda que não o façam por pressões de minorias com Privilégios insustentáveis e lobbies que escolheram o atraso como tática.

É artificial afirmar que as instituições estão funcionando.

É artificial explicar a descivilizacao como um processo que, ao fim e ao cabo, nos guindará à algum tipo evolução.

É artificial sustentar que a maiori dos intelectuais estavam cumprindo seus papéis quando se alinharam com o poder e avalizaram os 13 anos que corroeram o País.

É artificial divulgar que qualquer medida de saneamento da segurança e da economia deve ser
Criticada por não ter a abrangência universal. Não há abrangência universal.

É artificial a aceitação passiva de urnas que não podem ser auditadas.

É artificial que as pesquisas eleitorais não tenham auditoria permanente.

É artificial concluir que nosso futuro esteja nos teclados dos programadores de I.A.