Nação em transe e o risco de acertar

Nação em transe e o risco de acertar

Paulo Rosenbaum

06 Outubro 2017 | 10h11

Qual é o significado de estar à deriva? Quais as analogias possíveis entre um transatlântico e o Brasil? Um barco pode ir adiante, ceder ao extravio. Uma belonave, encontrar o Rochedo, o Farol ou encalhar numa praia deserta sem nunca aportar. O que faremos com um País que parece não se encontrar em lugar algum? De um Estado que age à revelia das pessoas? Que humilha a opinião publica. Será um problema de identidade ou de escrúpulos? De orfandade política ou submissão aos critérios malucos? Seremos uma sociedade inauditavel? Foi a economia que nos cegou para todo o resto? Que nau é essa, que ruma acéfala? Qual tipo de embarcação transita com passageiros apavorados e que sonham apenas com dias menos sobressaltados? E dai que a bolsa subiu se os dividendos morais desceram ao inconcebível? Não é que um País de mandatários inidôneos — ativos ou passivos — pode ser governado adequadamente. Acontece que agora a náusea fina e o enjoo permanente vem assolando incessantemente. Estamos à beira do brejo, com um Paranoá de vantagem, mas calma, ainda não transitou em julgado. Eis que vemos a justiça como uma miragem deformada, com cadeiras elétricas no pedestal.

A justiça que deveria coincidir conosco ainda não examinou as necessidades elementares da sociedade. A justiça prescinde do povo e ao que ele aspira. Compreende-se o desprezo, afinal qual Estado precisa de seu povo passado o período eleitoral? A justiça perdeu-se na forma da norma. E o sentido, mais uma vez, teve que ser sacrificado pelo juízo.


Recém descobrimos que foi lá, na fábrica de heróis, que os vilões foram faturados. Heróis especializados na reforma alheia. Olímpicos ou ordinários trata-se de política de terra espoliada. E, mais uma vez, e de novo, voltamos à lentidão seletiva da justiça. Por sua vez, é ela, a justiça, que guarda potencial para incendiar os cidadãos com a coragem. Daqueles que não temem se expor para sustar a sangria provocada pela facas da inércia. Da vida doada por outrem. Da honra que se esfacelou contra postes indicados. Que tomaram o poder com aval do capital. Dos litigantes mudos que desistiram dos ressarcimentos. Da cassação da voz dos assassinados a sangue frio. Ressentimentos incoesos vem e vão enquanto a sessão senado vai sendo reprisada à tortura. Jagunços veementes em suas retóricas dedicadas ao despiste. Está é uma Nação em transe?

Era.

O crime não compensa, só foi sendo assimilado como tradição. É natural que as organizações criminosas sejam autorreferentes. As regras valem pelo fio da navalha. Hoje vigente, amanha quem sabe, diferente? Duram um átimo, conforme a balança adulterada, o empréstimo estatal subsidiado, o imposto desviado. Não é consolo, mas eles ainda não acordaram para o pesadelo que os espera. Não há nenhuma chance de viver e ser agraciado enquanto teu irmão está cercado por fuzis ou milícias. Enquanto crianças habitam celas de perversos, e seguranças descontentes incineram creches. Se a missão das víboras tem sido produzir veneno, a única ação digna será buscar antídotos.

Eles trabalham com mandingas, nós exigimos ciência. E agora, o que me dizem? Que estamos todos cansados de tudo? De que estaríamos reduzidos a duas soluções: banho de ditadores ou juízes legisladores. Quem sabe um tirano avulso que saiba tratar as ratazanas? Que estamos no fim da estrada e o estado policial nos agraciará com suas mordaças e sombras? Essa é a pior hora para descansar. É o momento para escândalos públicos. De urrar forte contra a tentação da censura. É o timing para convocar ruas que esvaziem palácios. É verdade que, as vezes, temos que nos resignar com o maniqueísmo: a escolha simples entre o beneficio da duvida e os malefícios (reais) das certezas. Se há mesmo um lado bom da polarização, do entrechoque permanente, das colisões frequentes é que, sem alarde, nota-se que brota um subproduto inesperado: uma população de pragmáticos e não ideológicos independentes.

Um autor contemporâneo acaba de propor : basta de eleições – para ele estatisticamente a fonte de quase toda desgraça e corrupção – que tal escolher através de sorteio, as pessoas que nos governam? Para ele, teríamos mais chances. É claro que gera desconfiança mas há pelo menos uma vantagem: colocar toda culpa no lance dos dados. Imagino que, teimosos, insistiremos mais um tanto nesse empirismo eleitoral inventado pelos gregos — ir errando até correr o risco de, um dia, acertar.