O falso e os abismos na arte de interpretar

O falso e os abismos na arte de interpretar

Paulo Rosenbaum

15 Maio 2018 | 08h17

 

 

O escritor Ian McEwan revelou que certa vez ajudou seu filho numa tarefa solicitada pelo seu professor de redação. O tema proposto era produção de um texto tendo como tema uma obra sua.  Pois seu filho ganhou apenas um C do docente. Quais os significados dessa avaliação? Quais as implicações da análise do professor?  Teria ele o domínio técnico e capacidade necessárias para rebaixar a opinião do próprio autor da obra a uma categoria que estava no limite da reprovação?

Ilustra bem o momento contemporâneo, onde as interpretações adquiriram o poder, a critério da gestão ideológica dominante, de atribuir aos fatos o selo da verdade e da mentira; a própria origem do falso.

Uma certa excentricidade quase hegemônica tomou conta dos meios de comunicação — e as redes sociais ainda resistem mas não por muito tempo — e num átimo, sob um documentação apócrifa, eis que a ditadura pode não ser mais ditadura. O terrorismo vira militância, a extrema direita tornou-se porta voz da justiça, a extrema esquerda guardiã da liberdade que pretende destruir.   E falta pouco para que a perseguição política de dissidentes — agora ou outrora — seja considerada legítima. Em uma palavra, seguiu-se, à desmobilização da língua, um melancólico e progressivo embrutecimento da opinião pública.

E é sob essa perturbadora katastasis (sequencia) que as palavras vão sendo adulteradas até que alguém se aproprie da linguagem e, mais cedo ou mais tarde, dê cabo dela. Sem estabelecer o contexto toda interpretação fracassa. Pois é desta apropriação e tentativa de sequestro do discurso que subsiste a semente autoritária. Aqui ou no Reino Unido, a hermenêutica tem criado mais abismos que atalhos dialógicos. E o resumo do abismo é exatamente a ausência de regras para bem interpretar. Os procedimentos da lógica argumentativa estão sendo questionados. Mas é evidente que eles existem, a despeito do facebook e os gestores midiáticos não terem conseguido identifica-los. E agora buscam compensar a liberdade de expressão com censura e manipulação. Confiar em algoritmos é apenas o endosso deste tipo de distorção.

O professor britânico imaginou que sendo um leitor critico da obra do escritor poderia dar uma uma interpretação mais acurada — no sentido de certificada e correta — do que o próprio autor. E por que não?  Todo autor, especialmente os romancistas, sabe, que a partir do momento em que o livro deixa a gráfica ele perderá ao mesmo tempo, o controle e o monopólio. Vale dizer, seu trabalho deixou de ser apenas um sucesso de estima, um objeto monopsista, e, dali em diante, o exemplar transforma-se, quase à sua revelia, num “cidadão do mundo”. E, ao abrir mão dessa posse exclusiva, ele é obrigado a submeter-se ao diálogo de mentes, aquele que caracteriza a leitura.

Muitos escritores referem-se à criação como um processo misterioso, a grande maioria o classifica como sôfrego. E o último pode ser responsável pela ambiguidade frequentemente presente no ofício. De um lado a  ilusão de onisciência quando o escritor insufla vida no personagem,  que mesmo não nascido, passa a ter voz, de outro lado, uma profunda cisão pessoal.  Sem ela, a cisão, o risco de projetar o próprio DNA sobre os caracteres dos protagonistas é imenso.

Muitos autores experimentam essa fragmentação da personalidade, não necessariamente sob a forma de uma patologia, mas sob um pathos (paixão) necessário, de qualquer modo inexorável. Como se para criar a máquina de diálogos — que é um livro — e o espaço de maternidade gerador de personagens na ficção, fosse necessário expressar e sublinhar as divisões internas e acentuar a falha na identidade. O estranhamento do si mesmo. O intrigante é que para colocar a imaginação a serviço de um romance será necessário entrar em um um estado psíquico quase oposto ao da cura, pelo menos como aquela síntese escrita por Paul Ricoeur: “é preciso coincidir consigo mesmo”. Foi com esse espírito que  Jacques Lacan teria formulado a pergunta “Joyce é louco”? Escrever ficção seria uma atitude que se assemelha à insanidade?

Essa sensação, espontânea ou induzida, gera no autor uma espécie de apartamento da própria personalidade. Pode-se negar o fenômeno, ainda assim ele é auto-evidente e empiricamente constatável. Neste sentido, a geração de sujeitos criados nos romances, mesmo defectivos e parciais, é um feito notável. E tal como um pai ou uma mãe, há certo orgulho pelo que cada um deles gera como contrapartida em seu criador. Entretanto, como inexiste neutralidade, toda obra de arte deveria levar em conta um ethos, isso é, assumir alguma responsabilidade.*

O professor que corrigiu a redação do filho de McEwan  provou isso ao provavelmente ter ouvido a voz autonômica de um ou mais personagens por ele criados. E no lugar de uma única e consensual certeza de que tal obra deveria ser considerada conservadora, progressista, de direita, de esquerda, avançada ou retrógrada, revolucionária ou convencional, experimental ou do mainstream, moderna ou pós moderna, o crítico tem a obrigação, antes, de proceder a leitura à guisa de uma fonte primária. E temporariamente suspender suas teorias e bagagens. Como se não existisse um antes ou depois.  E, talvez aí sim, aplicar sua capacidade intelectual e erudição, para efeito de análise e comparação em um terceiro momento. Ou nunca.

Só assim os autores passarão a ser valorizados — ou avaliados — pelo que efetivamente escrevem e não para qual publico escrevem, qual escola são filiados, quais os nichos atendidos e enfim se o seu sistema de notação agrada ou desagrada o crítico-colunista, pareceristas das editoras ou os jurados dos concursos literários. Pois justo aqueles que enunciam a preeminência da diversidade preferem e privilegiam suas reservas de mercado ideológico e adotam políticas excludentes em sua listas de seleção literárias. E já que estou conformado, isso não é uma reclamação, apenas um alerta.

O excesso de engajamento — uma censura branca e cinza — têm empobrecido um debate já deficiente e determinando um nocivo oligopólio de regras ideológicas onde o predomínio de determinados  slogans se impõem sobre a criatividade e sobre os méritos dos originais.  A literatura deveria transcender a datação e ultrapassar a análise binária e reducionista da realidade política, ou, até mesmo, despreza-la. Isso pode não acontecer, mas aí sim, estaremos, mais uma vez, cedendo terreno para aprofundar os fiascos hermenêuticos.

*Na exposição do professor Júlio Jeha sobre a obra “Frankstein” de Mary Shelley emergiu o conceito de accountability (numa tradução livre aproxima-se de “responsabilidade”), tema que merece desdobramentos. Estas e outras reflexões sobre a ética da criação e interpretação de textos literários foram feitas durante a recente  jornada de literatura “Criadores e criaturas” na UFMG (organizado pela Faculdade de Letras através da professora Lyslei Nascimento e colaboradores).