O homem que viu o coronel Fawcett

O homem que viu o coronel Fawcett

Paulo Rosenbaum

23 Abril 2013 | 10h58

 

“Ao morrer, aos 94 anos, em maio de 2010, o engenheiro paulista Manoel Rodrigues de Oliveira tinha percorrido o Alto Xingu, a estrada de ferro Madeira Mamoré e todo o Alto Araguaia. Estivera com seringueiros em Rio Branco e percorrera a Estrada de Ferro Brasil-Bolívia em território boliviano. Contatou índios xavante, caiapó, trumai, carajá, txucarramãe. Ajudara a buscar os despojos do que teria sido o lendário Coronel Fawcett e a criar o Parque Estadual do Alto Ribeira, e trocara cartas com inúmeros intelectuais, de Câmara Cascudo a Stephen Hawking.”

“O que aconteceu ao coronel Fawcett? Essa pergunta vem sendo feita desde 1925, quando o oficial britânico Percy Harrison Fawcett desapareceu na selva brasileira, em companhia do filho, Jack Fawcett, e de um amigo deste, Raleigh Rimmel. A pequena equipe, comandada pelo coronel, embrenhou-se na selva em busca de uma mítica “cidade perdida”, que jamais chegou a ser encontrada.”

 

Manoel fez o seguinte relato em um datiloscrito encontrado em seu apartamento com um lacre que trazia a inscrição “só abrir depois da minha morte”:

“Talvez seja preferível não falar mais em “verdade” ou “fantasia”. Vamos tratar tudo como “narrativas”. O velho caboclo, descendente de caciques txucarramãe me disse, e até onde eu sei ele não deu motivos para desconfianças. Desde o início deixou claro, que ninguém o conheceu com muita intimidade. Mas afirmou várias vezes que seu pai e o coronel Fawcett tornaram-se amigos.

Repito. Não acredito que ele tivesse motivos para mentir. De forma geral é um hábito que não faz parte da cultura dos índios.

Segundo ele Fawcett era um homem duro, obstinado e arredio. Sustentou até o fim ter encontrado o que procurava. Nunca comentou sobre a civilização perdida na serra do Roncador ou se os vestígios que achou eram exatamente o que os relatos antigos traziam.

Um pouco antes de me despedir o caboclo – devia ter uns 90 — me olhou com os olhos bem abertos como alguém que conta um sonho entrecortado e disse compenetrado de dentro da voz rouca: o estrangeiro não estava procurando este povo morto, nem tentava achar a cidade que o pessoal chama de Z.

— O que o queria então? Arrisquei perguntar.

Traduzo o que lembro depois de tantos anos que ouvi aquela história.

Tudo se originou quando o escritor compatriota (suponho que seja Arthur Conan Doyle) falou sobre um mapa que teria sido achado dentro da edição original do livro de Gaspar de Carvajal “Descubrimiento del Rio de las Amazonas”.

O papel indicava o lugar exato não de uma cidade perdida, mas de um complexo sistema de canais subterrâneos construído por míticas mulheres guerreiras que se chamavam Amazonas. Segundo o escritor, a descoberta dessa rede fluvial seria um dos mais significativos achados arqueológicos de todos os tempos.

Fawcett reteve a informação. De volta a Londres, antes de voltar para o Brasil pela última vez e desaparecer, foi visitar o amigo. Era uma noite de bebedeira e euforia e Doyle lhe disse que decorara a localização exata do tesouro arqueológico. Rapidamente fez um esboço que trazia minúcias incríveis. O mapa rabiscado pelo escritor continha detalhadas distâncias, marcos e referencias, inclusive com indicações de latitude e longitude. No final da festa, já sós, o escritor estimulou o amigo a voltar para a selva e encontrar a merecida fama. O coronel saiu mais que nunca disposto a enfrentar o desafio e manteve o sigilo até encontrar uma maneira de viabilizar a aventura.

Fawcett fez de tudo para achar a região, tomando todos os riscos, pessoais e financeiros. Quando finalmente desistiu, entendeu que o amigo tinha lhe pregado uma peça e passou a falar sozinho. Desesperado e humilhado, recusou-se a voltar para seu povo. Mudou o nome para “Nuvem iludida” e repetia muito a expressão “Doyle, seu bastardo” para depois gargalhar.

O coronel virou pajé e viveu numa aldeia com a nova família até falecer de malária com uma idade bem avançada.”