Panela de pressão

Panela de pressão

Paulo Rosenbaum

19 Abril 2013 | 12h34

Panelas Vociferantes

 

“Agentes do FBI concluíram nesta quarta-feira como o ataque à maratona de Boston foi realizado: panelas de pressão cheias com explosivos, pregos e outros estilhaços de metal. Mas ainda não sabem quem promoveu o atentado nem a razão.”

 

A explosão em Boston acertou em cheio aqueles que esperavam por uma trégua do terror. Duas coisas despontam, o terror não é saciável e a paranóia será sempre infrutífera. Não há como se proteger de jihadistas dispostos, fanáticos vibrantes ou ultranacionalistas. Toda violência é injustificável, mas ninguém pode aceitar equivalências absolutas. Já há quem compare e justifique o que os irmãos fizeram como supostas respostas à opressão americana, aos ataques do exército russo, ou um tributo a libertação. Isso só confirma que o terror não tem equivalentes quanto se trata de irracionalidade. É necessário haver uma gradação na escala universal para coisas equivocadas. Senão tudo seria igual a tudo e perderíamos o que conquistamos à duras penas com os filósofos: as idéias claras e distintas.

Alguém precisa falar do símbolo. Uma panela de pressão. A bomba pseudo-caseira, montada dentro de uma panela de pressão é uma linguagem a ser decodificada.

Alguém já se perguntou, por que numa panela?

Vai muito além das facilidades paramilitares. As escolhas contém metasignificados, ainda que não os compreendamos momentaneamente. É que a metamorfose de um objeto em outro pode dizer mais do que gostaríamos de escutar. A arte já tinha nos indicado isso. Agora o lugar em que se cozinha no vapor foi transformado em uma arma lançadora de pregos e partículas metálicas letais. A metáfora é quase auto evidente: pressão, fragmentação, ponto de ebulição, a gota d’água. Logo haverá um registro de porte para panelas de pressão e teremos que portar licenças para lidar com objetos potencialmente destrutivos. O que virá em seguida? Pentes, secadores de cabelo ou cafeteiras?

O terror é o recurso psicológico contemporâneo mais eficiente em termos absolutos e relativos ou não estaria ocupando as páginas de jornais e blogs do mundo inteiro.

A arte maléfica de explodir gente ganhou aura de hapenning, instalação, grande evento. Virou abstração que recobra uma dimensão que não têm inserção na realidade. Os efeitos? Aparecem como a forja que molda nossas mentes. Mais um motivo para recusá-lo e dizer não sem negá-lo. Isso quer dizer que precisamos entender que ele veio para ficar. Por assombrar e obscurecer quase tudo à volta ele conquista e avança em seus objetivos de controlar nossos pensamentos e preocupações.

Não se pode sacrificar a vida por causas. Mesmo aquelas que sejam justas e sensatas, jamais merecem preceder o direito à vida. A propagação do instinto de morte será tanto mais eficiente quanto mais sucumbirmos ao tema da vingança e da justiça instantânea.

Às vezes, na maioria delas, as tragédias não ensinam nada.

Mais um motivo para tentar escutar o que ninguém consegue.

Nenhuma vítima voltou para perdoar, mas se fôssemos suficientemente sensíveis para capturar as vozes que ainda vagam, ouviríamos um modesto silencio.

O silêncio das saudades da vida!