Penúltima epistola

Penúltima epistola

Paulo Rosenbaum

16 Maio 2014 | 10h23

“A grande prosa é a arte de captar um sentido jamais objetivado até então. E de torná-la acessível a todos os que falam a mesma língua. Um escritor morre em vida quando não é mais capaz de fundar assim uma universalidade nova e de se comunicar em meio ao risco”

Maurice Merleau-Ponty

Peço-vos calma. Também ouvi os rumores com atenção. Se ainda não notaram, aquele País, de qualquer forma, a pátria cultural que imagináramos, já foi. Desceu à hera. Sem meio termo: inexiste. Talvez adiante, em outras gerações. Se me forçam a dar um parecer, eis que nesse novo território vigoram regras, claras, porém impostas. A síntese que captura o estado das coisas: não importa mais o que se escreve já que não importa mais o que se fala.

Essa é apenas outra forma, covarde por sinal, de confessar ao leitor que doravante será inútil, ao romancista ou ao poeta, debruçar-se sobre os papéis, esmiuçar palavras, estimular a dedução dos sentidos.  Graças a uma fenda no tempo enxerguei as novas histórias. Essas, com data. Testemunhei um estilo, traduziam toda linguagem ao senso comum: florestas reduzidas a carvão. Vermes digerem homens e livros, destinamo-nos ao pó.  Consolava saber que inscrevíamos nossas singularidades no mundo. Eis que, lá adiante, será diferente: o autor sucumbirá, sem cravar marca. Foi então que me ocorreu a temível antecipação: o que será deste nosso ofício? Notem que mesmo acolhendo a pergunta com equanimidade, meu espírito cedeu. Foi pela resposta que recebi. No futuro, alguém redigirá nossos textos. E quando quis saber no que consistia o aperfeiçoamento —  o próprio espírito da adulteração — me contam de gente treinada. Treinados para promover  simplificações. Golpe e tanto saber que escrevo hieróglifos. Primeiro me perguntei da estupidez, depois se todo mistério para abolir a capacidade criativa do escritor caberia num só cabresto. Querem saber mais deste futuro tardio? O que será levado em consideração? Como se julgará a qualidade?  Descubro, há consenso. Lá adiante, o principal, senão o único aspecto que avaliará uma obra será: alcançou leitores? Aos milhões? Portanto, neste final, abraço um a um para anunciar que, sem renúncia, mágoa ou resignação, abdico da atividade. E direi, ao modo de um daqueles meus presságios que os clínicos insistem em diagnosticar como “aura”, que, quando, experimento o tratamento que o futuro nos reserva, sou tomado por uma anomalia que reputo estranha ao meu espírito, convicção. Ela que justifica a penúltima epistola.

Se formulo um conselho? Busquem outros meios para alcançar imortalidade!

Afetuosamente,

Machado de Assis