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Polidez seletiva

Paulo Rosenbaum

15 junho 2014 | 09:08

 

Era melhor nem comentar. Nem iria, se não fosse a comoção histérica que passou a monopolizar as conversas. Acontece toda vez que a impopularidade dos populistas aparece. Decerto foi indelicado. Novo padrão estético mereceria ter chance nos coros de protesto. Sem refrões mais criativos seria preferível manter a elegância da vaia. Ela demonstra repúdio mais civilizado, impessoal. Pode ser gutural, mas é universal. Claro que aos ofendidos interessava tomar como desonra e contra-atacar. Mas é o poder que estava sendo recriminado. O espantoso são os critérios de equivalência usados pelos comentaristas chapa branca.

Um juiz pode ser humilhado e testemunhar sua reputação sofrer pesada campanha difamatória, racista e caluniosa sem que se levante um pio. Enquanto ao presidente do partido que está no poder é facultado insinuar que o adversário político consome drogas. Quem não se lembra do séquito de indelicadezas indiscriminadas – dossiês sujos, ataques de intelectuais à classe média, o despudor do “relaxa e goza”, insinuações homofóbicas nas campanhas eleitorais, desqualificações sistemáticas daqueles que discordam, o clamor em rede nacional contra a mediocridade dos pessimistas – e do abuso do linguajar hostil, por vezes espalhado com subsidio federal.

A tragédia nacional não é bem essa. Chocante é o nível com que hoje se expressa o diálogo político. Criticar tornou-se escandaloso. Vaiar, ilicitude. De repente, xingamentos nas arenas serão criminalizados. Como se catarses não fossem imprevisíveis. Como se as massas dos estádios lá não estivessem para se desvencilhar da autocensura. Como se qualquer pagante fosse culpado. Como se eles não fossem coautores do esbanjamento e do clima de animosidade. Como se a elite estivesse fora das tribunas de honra. Como se o ópio não liberasse insultos sufocados nas gargantas. Como se fosse tremenda novidade que árbitros, bandeirinhas, times e jogadores não tivessem que ouvir as mesmíssimas expressões. Palavrões e insultos que agora maculam o aveludado ouvido de autoridades, locutores e militantes indignados.

A hipocrisia fica muito mais insuportável quando escolhida a dedo. Sob um puritanismo distorcido, escolheram a polidez seletiva para se solidarizar.  Sinto muito, mas aí o cinismo escapa do centro da meta.