Reciprocidade do Bumerangue

Paulo Rosenbaum

08 Janeiro 2017 | 22h48

Reciprocidade do Bumerangue

Lutamos para manter sistemas simbólicos e culturais, aqueles que nos fazem sentir o pertencimento. Tentamos achar códigos de identificação. Isso vale para qualquer coisa: iconografia, opinião, língua ou sistemas de notação. Arte, representação ou simplesmente tribalismo racial ou étnico. E tudo isso para que? Manter a identidade? Mas conterá ela alguma unção externa a nós mesmos? Temos que nos apropriar – como se não fosse o suficiente – e vestir o manto de ideias exógenas? Teremos que adotar ideologias específicas para nos manter como consciências únicas, separadas, vale dizer identificadas com o meio? Para que? Tudo isso significa a insegurança de uma era? Seria motivada pela paura da dissolução em um mundo onde tudo parece só ter sentido se houver um que nos seja ditado pelos fiscais do pensamento ou auditores das consciências? Por que nos curvamos a um sentido emprestado do mundo?

Psicólogos, como Viktor Frankl, por exemplo, tinham outro modo de ler a avidez humana por significados emprestados do meio. Para ele, só conseguiríamos nos aproximar de um conceito cada vez mais abstrato, longínquo e pouco plausível chamado de felicidade, se, ela mesma, fosse esquecida. Isso é, se sua busca estivesse dissolvida na ideia de que nosso bem estar só teria alguma efetividade e pungência – fugaz, inconsistente e provisória – caso nos dispuséssemos a aceitar dissolver nosso interesse pelos que estão ao nosso redor.

Há muitas ideologias que prezam esse interesse, então onde estaria a novidade? Neste caso, a origem não seria sociológica, religiosa, sequer de natureza ético-filosófica. Seria uma espécie de oferta sem a intenção voluntária ou involuntária de recompensa. Frankel ainda relaciona isto a metáfora da volta do bumerangue. Lembra que quando fez uma palestra na Universidade de Melbourne na Austrália foi presenteado com um. Fazendo uma livre associação notou que o artefato só tem seu trajeto balístico de retorno quando fracassa, isso é, quando não atingia a caça.

Em uma analogia com a entrega ao outro, o arremesso do bumerangue conteria, já, seu próprio conteúdo. Seu retorno ao lançador seria quase um equívoco. A ideia de fazer sem esperar reciprocidade é que seria, já, o sintoma de compreensão: a entrega é o sentido e a própria recompensa, se é que deve haver alguma.

Alguns poderiam traduzir a proposta como um sentimento infantil de ingenuidade e culpa. Outros a classificariam como proto altruísmo, um resquício de caráter neo-religioso. Mas o que Frankl tenta trazer é a ideia de que a liberdade interior deveria ser direcionada. Orientada mesmo a um sentido que compreenda o mundo relacional como um elemento que permita ao sujeito conquistar algo aproximado à auto transcendência.

Essa conquista é uma meta em si mesma e, independe de qual meio ou cultura se vive. A ansiedade de ambas, identidade e busca de reconhecimento, se aplacam sob esta perspectiva. Por outro lado, é bastante problemático apostar no sucesso para um projeto de sentido que esteja orientado ao futuro.

É melhor pensar que nesta perseguição de atitudes mais ativas do que reativas haveria algum sentido de ressignificação imediato, de totalidade recuperada e, de completude, que agregaria aos sentidos destroçados pelas idealizações e expectativas o insight orientado à busca. Busca que, sendo pessoal e idiossincrática, permitiria que nossas metáforas obsedantes estivessem orientadas a um sentido externo a elas mesmas.

Mas isso é só o devaneio para uma noite de inverno.