Rumo ao Totalitarismo

Rumo ao Totalitarismo

Paulo Rosenbaum

16 Julho 2013 | 23h24

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Ninguém precisa de poesia. Como apontam pragmáticos e os inimigos da subjetividade, talvez ela não sirva para nada. Ainda assim, palavras tem o potencial para nos livrar de uma trama sinistra, da qual o senso comum nem desconfia.
Por trás de toda fanfarra totalitária está o elemento que ninguém previu. Para que um Estado totalitário se instale é preciso contar com algo além da cegueira das maiorias. Tampouco bastam ideólogos e intelectuais de arrimo, os sustentáculos acadêmicos do regime. No debate numa grande Universidade sobre os recentes protestos pode-se perceber o mal estar quando alguém da plateia perguntou:
–E os intelectuais? Como se posicionam nesta história toda? (das manifestações maciças por todo País)
Entre pigarros e acenos para o chão, a sala se encheu de constrangimento. Tudo devidamente racionalizado com as indevidas evasivas.
A rigor só há uma função decente para intelectuais, assim como para a imprensa: vigiar e cobrar o poder de suas responsabilidades. Não importa quem governe. Aliás, o vigor da academia e da informação está na crítica, não na aquiescência, jamais na cumplicidade. Tudo que deviam evitar é chapa branca e uniformes dos partidos.
Mesmo agora, depois da perplexidade inicial o núcleo duro que dá respaldo ao governo não parece arredar pé. Escolheram sustentar o engano a consentir e proceder uma revisão vital. Para muitos deles, assumir erros é capitular, examinar erros é fraqueza e a autocrítica não passa de punição. Estão inventando moda, pois qual ciência se sustenta sem retificação permanente a partir das experiências?

A reação da legião uniformizada surpreende mesmo os mais pessimistas. Esperava-se que diante da claríssima contestação popular, pudessem conceder que houveram desvios graves. A flexibilidade doutrinária seria enxergar que todos fomos grosseiramente ultrapassados pelos fatos.
Sempre que bem pensantes se alinharam a projetos hegemônicos de poder a história os desmascarou. Salvo exceções, a análise retrospectiva mostrou que estavam do lado errado: muitos deram legitimidade para o uso do poder contra a população e a sociedade. Os que resistiram aos conluios não sobreviveram inteiros.

Sem generalizar, ninguém se exime de omissão. Estiveram respaldando os partidos que agora negam tudo para se livrar dos apuros em que nos meteram.

Por intuição, sabíamos que o poder esteve tentado a usurpar direitos individuais a fim de atender supostas necessidades coletivas. Para tanto foi necessário que se criasse o sentimento de servidor da pátria. Só que a ousadia vêm ultrapassando todos os limites razoáveis. Promulgou-se o decreto de que doravante categorias profissionais serão escaladas para a semi-escravidão. É muito significativo que tenham escolhido estudantes de medicina para suprir inépcias crônicas de seguidas administrações federais. No mínimo, há flagrante violação da constituição federal e das leis do trabalho escravo sancionada pela OIT do qual o Brasil é signatário. Em teoria, o servidor, antes de ser reduzido pelos administradores a uma unidade vigiável com RG, teria sido um cidadão de carne e osso, com direito à liberdade, autodeterminação e privacidade.

Isso significa mais ou menos o seguinte; a educação totalitária – a qual testemunhamos — precede o estado totalitário – cuja instalação está sendo cozida no vapor.

A instauração de um poder central cada vez mais forte. Reparem o aumento progressivo da concentracão de poder nas mãos do executivo, suas insinuações arrogantes, a pletora ministerial, gula fiscal, cooptação agressiva e ostensivo uso da liberação de verbas como ameaça. Não espanta a articulada desarticulação da segurança pública. Coincidem com as anotações de Hobbes de que é constitutivo do poder aterrorizar para controlar.
Exemplos de educação totalitária? A premissa número um é a baixa remuneração. Chamam de processo educativo esmagar toda criatividade com censura e frases desestimulantes. Há serviço melhor para impedir qualquer potencia criativa?

O que os atuais modelos de agremiações políticas e suas corporações insistem em preservar? A mediocridade da cultura de consumo? Sob os auspícios dos privilégios e do lobismo? A vassalagem aberta e fisiológica a um dos poderes? São todos elementos que conspiram para endossar que há uma lógica: um gradual processo com finalidade totalitária.

Não é a toa que originalidade e independência passaram a ser tidas como nocivas e merecedoras de castigos. É que a singularidade ameaça o sistema de castas do establishment conforme previu Roland Barthes quando sonhou com a “ciência impossível do ser único”.

O pacote que recebemos para desenvolver a sociedade digital trouxe pelo menos uma boa nova. É certo que ela veio junto com a poluição de informações, calúnias, boatos incomprováveis e manipulações em tempo real. Mas o conjunto de efeitos colaterais gerou um novo fator: defenestrar os salvadores e a tutoria mental que nos subjuga. O jogo do líder carismático imbatível vem sendo corroído pela sede. A ingovernável sede por autonomia que emana dos indivíduos.

Isso explica, por exemplo, por que sindicatos, partidos, ONGs e instituições subsidiadas que até muito recentemente arregimentavam pelotões, foram destituídos pelas ruas.

Até mesmo claques remuneradas parecem não mais dispostas a esmurrar o ar ou gritar palavras de ordem que não tenham sido por elas inventadas.
Corremos o risco de mudar para pior. O perigo de voltarmos ao chefe geral dos postes ainda não passou. A tirania dos Estados modernos pode assumir muitas formas distintas, mesmo nas democracias.

 

A sensação de subversão contra o status quo sobrevive e parece recorrente. É que conforme antecipou o escritor norte americano Howard Fast, nosso primeiro mandamento é resistir à tirania.