Transparência privada e outras opacidades

Transparência privada e outras opacidades

Paulo Rosenbaum

19 Julho 2013 | 00h31

 


Aposentem os espiões


Além da notoriedade, que outras características pessoas famosas precisam ter para merecer nossa veneração? Nenhuma. Basta que alguém lhes siga, compartilhe aos milhões, e sejam citados na mídia milhares ou centenas de milhares de vezes.

Pois é esse combustível que, paradoxalmente, leva à abulia crônica na qual nos metemos todos. Aquela que nem os mais poderosos psicofármacos são capazes de corrigir, já que a correção demanda elevação do discernimento, não sua eliminação.

Mas há sim uma função social na adoração das celebridades: contingenciar a imobilidade psicológica das massas. Por aqui, com a mobilidade social provisoriamente assegurada, será preciso lembrar que mais recursos financeiros garantem apenas acúmulo de bens, não patrimônio cultural.

Fotografado com beldades em sua banheira de ouro puro, uma destas celebridades internacionais do mundo musical recém explicou: o negócio é fazer com que acreditem que “eles sou eu”.

Parece que funciona. Variações de cultura? Maia, o mundo da ilusão, é, para a cultura hindu, o próprio equívoco. Mas para a nossa serve bem. Para quem quer popularidade a todo preço é uma forma de fidelizar a clientela.

É óbvio que quanto mais se expõe uma personalidade pública, menos privacidade terá. Mas é esse o negócio. Isso é vendido pela indústria da mídia como vantagem. E o que isso tem a ver com espiões? O enorme aparato de escutas, monitoramento e repressão que foi montado a fim de deixar a vida privada desnuda, tem a missão colateral de acobertar a esfera pública.

É assim que a fórmula se fecha: transparência privada/opacidade pública.

Vêm bem a calhar a polêmica sobre o vai-não-vai de Snowden. Não é porque estamos sob holofotes que ameaçam a vida privada que precisamos eleger espiões profissionais e delatores como grandes defensores das liberdades civis.

Há uma avaliação errônea, sobretudo precoce, ao apontá-los como heróis. Repete-se a ingênua celebrização de Assange,– que se recusa a responder aos processos de agressão sexual na Suécia — e agora se encontra sob a proteção do notório perseguidor de jornalistas equatoriano. O resultado final é que, ironicamente, tanto Snowden como Assange devem se tornar popstars sem a menor chance de voltar a usufruir privacidade. E quem foi que disse que não é exatamente isso que desejam com as grandes perspectivas de contratos com grandes editoras e subsequente publicação de best sellers.

Antes de se tornar um business, a fama vinha junto com a maldição da exposição, do narcisismo, do hipnotismo de espelhos. Em nossos dias quem precisa estar sempre em evidencia serve tanto o escândalo como o boato.  

O marketing político não apenas usa, conta com fatos diversionistas para obnubilar eventos mais sérios. Claro que, no caso de Snowden o que ajudou a propagar a indignação mundial não foi só a invasão das privacidades e a deplorável pressão sobre o avião presidencial boliviano. O motor da onda de espanto pelas injustificáveis violações que todos os adultos do mundo ocidental estavam cansados de saber, só pode ser explicado pelo gana antinorteamericana, uma das grandes religiões contemporâneas.

Espiões arrependidos são perigosos para todos e costumam ser mais comprometidos que seus mandantes.

Confirmando o entendimento pouco criterioso deste tópico, o mais comum é acusar a imprensa de golpista e tendenciosa. Se é esse o caso, vamos lembrar da contrapartida, há também uma imprensa chapa branca e acrítica. É preferível acreditar que nada seja tão preto no branco. A tarefa de formar a opinião pública é simplesmente supra governamental e transpartidaria, portanto incompatível com adulação e subserviência ao poder. A imprensa precisa se concentrar em exercer seu insubstituível papel social: informar e opinar criticamente.

Pró ou contra, o foco essencial deve ser restabelecer a crítica. A crítica que o poder não se faz. A crítica que a oposição não pode fazer. Traduzir as vozes que as ruas exprimem hoje com os protestos.   

Por isso seria de grande importância examinar o culto à personalidade. Vale para as artes e para a política.Que tal começar a pensar quem são os que ganham com a abolição da crítica e da análise?

Definitivamente, calar a boca não é mais uma opção.