Um aiatolá nuclear em SP

Paulo Rosenbaum

31 Julho 2017 | 10h25

Eis que um evento patrocinado pelo Pt e associados na figura melancólica do vereador, o veterano Matarazo Suplicy, traz como estrela um aiatolá nuclear iraniano. Já soaria peculiar que um País que depara com uma crise político financeira monstruosa tenha tempo e recursos — públicos e privados — para subsidiar um membro da elite teocrática do Irã. As redes sociais — e os detratores profissionais — usaram a presença da guarda cerimonial paulista para insinuar que havia o apoio do governo paulista ao evento. Quem solicitou a guarda e tratamento de chefe de Estado ao aiatolá foi o vereador supra citado.

E como se não bastasse usando o know how da antiga URSS, instalaram uma foto de discurso de posse do governador com o mesmo guarda do cerimonial para emular sua participação no evento. O lulopetismo e radicais de porta de facebook, aproveitando a maquiagem de desavisados espalhou a notícia criando, como é rotina, um falso alarme de péssima qualidade jornalística.

Mas a suprema ironia foi ter por aqui um amigo da organização terrorista Hezbollah que veio supostamente falar — notem, falar, não debater — sobre “radicalismo e terrorismo”. Ora, seria compreensível se não desafiasse a lógica mais elementar. O senhor em questão concedeu uma entrevista a um jornalista do Estadão onde evoca com grande naturalidade que as profecias (sic) já anteciparam que o Estado de Israel deve desaparecer, não uma, mas duas vezes. Compreende-se até o wishful thinking de um regime proto -terrorista que não se preocupa mais em disfarçar que sua aspiração nuclear pacífica convive com o sonho de erradicar o Estado judaico da Terra. Tergiversando, e sem entrar no mérito de porque seu País tem instigado e financiado sistematicamente milícias e organizações do terror pelo mundo, o aitolá prudentemente também se calou sobre as perseguições políticas e religiosas que ocorrem como rotina na República Islâmica. Nem mencionou, tampouco, a violação sistemática dos direitos humanos contras as minorias e as mulheres em sua terra natal. Mas foi pródigo em fazer acusações vagas e pouco consistentes contra seus inimigos “satânicos”. Em franca beatitude, este santo homem mostrou em poucas palavras o significado profundo da tolerância.

O verdadeiramente incompreensível, neste caso, é a ausência absoluta de percepção de autoridades dos três níveis em aceitar um evento grotesco, onde um apoiador ideológico confesso da estratégia terrorista venha fazer — a titulo de colaborar com a promoção da paz e da tolerância entre os povos — uma palestra sobre o tema.


As disparidades não se restringem às incoerências auto-evidentes, mas à falta de autocrítica associada a uma passividade patológica, que parece estar caracterizando nossa opinião publica. O status quo desta alienação inconsequente tem permitido que cenas perturbadoras tenham lugar como se fossem eventos normais. A naturalização do esdrúxulo parece estar sendo a tônica deste nosso momento histórico. Se, de um lado, um ex presidente e sua parafernália assalariada com dinheiro publico desviado desafiam abertamente as instituições sem que as mesmas deem uma resposta adequada, de outro, reproduzimos os mais tristes estereótipos da República.

As instituições podem estar funcionando, mas muitos aquém da eficácia exigida num momento dramático como o que vivemos. Um núcleo suprapartidário e não ideológico precisa retomar com urgência as rédeas da política exterior brasileira que tem seguido — numa perigosa continuidade inercial — as diretrizes da desastrosa política externa preconizadas pelas últimas gestões. É preciso esclarecer quem participou do evento, quem o sustentou e qual o propósito de uma visita que ilustra mais um capítulo de nossa República anômica.

Infelizmente esta mentalidade deturpada já contaminou boa parte de nosso mundo acadêmico e de instituições culturais com uma percepção mais do que tendenciosa sobre um conflito do qual eles não têm a menor base para julgar.  Suas análises não consideram os motivos essenciais que definiram a situação vigente no Oriente Médio, notadamente em Israel e na Palestina.

Escrito em parceria com Floriano Pesaro, Deputado Federal (PSDB- SP) e Secretario do Desenvolvimento Social do Governo do Estado de São Paulo