Um ônibus chamado realidade

Um ônibus chamado realidade

Paulo Rosenbaum

03 Julho 2013 | 23h35

Um ônibus chamado realidade

 Proposta de plebiscito divide PT

 

Em São Paulo, 5 mil médicos fecham a Paulista por 4 horas em protesto

Um ônibus chamado realidade

 

 

Há demanda generalizada por soluções adiadas. E há pressa.  Agora, não nunca. Já, e não em breve. Ainda que as mazelas não lhe sejam inatas é mais do que justo que se cobre de quem está no poder há quase 10 anos. O poder sempre ficou tentado a repetir o establishment. Aquele que originalmente deveria ser deposto. E por que tanto espanto? Sim senhora, é o ônus do mando. Bases fisiológicas derretem sem organicidade. Aliados se dispersam na crise, mas muito estranhamente, lá dentro, no quente núcleo duro do poder, a dissidência é pontual. O que será que será? Restringe-se à mudança de nome caso a candidatura seja eleitoralmente inviável? Que tipo de governo teremos caso ele volte? Cada agremiação tem seus defeitos. Fica escancarado que o principal defeito do petismo institucionalizado é o culto à personalidade e a convicta aversão à autocrítica. Compreensível. Agem como torcedores roxos, para quem o time nunca erra e assumir a sucessão de enganos parece uma afronta insuportável.

 

Mas para entender temos que vasculhar as origens. Expectativas infladas, sempre maiores do que as perspectivas. E ainda por cima havia essa coisa horrível, conspiratória, sempre à espreita. Ela de fato não deu um minuto de paz. Se ao menos pudesse ser enquadrada. Uma mordaça como tantas já usadas teria dado um jeito na malvada. Um pau bem dado faria a coisa cair na real. Mas a bichana era esquiva. Chama-se realidade e mora em toda parte. É ela que costuma colocar tudo a perder. Jamais existiu um marco zero. Não houve o “nunca antes na história”. No âmbito sociológico não existe ex-nihilo, não se inventa um País, não se emula uma cultura nem se forja uma tradição. Construímos, modificamos e modelamos de acordo com a criatividade e com a consciência do sujeito. E só depois se pode fazer com todos e para todos, coletivamente.

 

Que tal na consulta no referendo de 2014 (ninguém aceita plebiscitos instantâneos) fazer as perguntas que estão para bem além do financiamento das campanhas. Aquelas que encostam no nervo desprotegido do corpo político: qual o teto para o uso dos recursos do marketing e propaganda? Antes disso. Não são tecnologias desenvolvidas para vendas? Não são instrumentos que visam intensificar o consumo? Vender bem o peixe? E o que faz o marketing no meio da política? Como pode ser que essa gente tenha se transformado nos fiéis da balança numa República Federativa? É a alma do negócio? Se é isso vamos assumir que políticos são como tudo hoje em dia: produtos numa sociedade de consumo. Que se criem regras de SAC e que haja um repartição para devolução dos fajutos. E por último alguém de plantão responda alto, por que é que o voto ainda é obrigatório?

 

Talvez seja vício de especialista, mas a intuição aponta que a resposta para muitas inquietações pode estar em planejamento e prevenção. Da medicina às malhas viárias, da reforma política à segurança pública. Se há tantos estudiosos por que há anos despejamos 300 mil novos carros por mês nas nossas cidades. Por que investimos em malhas viárias de rodovias em detrimento do transporte ferroviário? Por que nas últimas décadas privilegiamos modelos hospitalocêntricos quando até as pedras sabem que o que precisamos é descentralização, Unidades Básicas de Saúde e mais ênfase na atenção primária?

É deste contexto que nasce a perplexidade.

Como alguém ousa chamar de solução a convocação de médicos cubanos, espanhóis ou turcos, sem revalidação de diploma, quando temos superávit de Escolas de Medicina, e médicos em número perto daquele recomendado pela OMS.

Devem haver motivos de sobra para que os profissionais estejam estão concentrados no Sul-Sudeste. Alguma chance de que o atendimento não ofereça as mínimas condições de infra estrutura? Que quanto mais se afastem das regiões onde já há precariedade o ambiente e os salários não oferecem condições mínimas para a prática da medicina com dignidade. E quem assume a culpa pela persistência em modelos tão errôneos? Decerto não é culpa isolada de um partido nem de uma administração. Não quiseram e não querem ou não precisavam oferecer respostas. Mas a resposta está sendo exigida agora e o governo é esse. É evidente que não se trata de direita ou esquerda. O poder precisa aprender a respeitar não só as minorias como vozes dissonantes não etiquetadas, aquelas que destoam do coro do “sim comandante”.

Houve uma vez uma hierarquia, mas é exatamente a hierarquia baseada em igualdade seletiva que está sendo encurralada conforme a previsão de Orwell.

Quando as promessas caem por terra o demagogo salvador avalia que, sem saída, resta conclamar hostes em sua defesa. Elas até podem empunhar bandeiras com sinceridade mas desaparecerão mais cedo do que se pensa, junto com falta de transparência do convocador.  

A densidade de uma autêntica personalidade política é constituída por uma força peculiar. Um Estadista deveria saber que no lugar de instigar confrontação e desestabilizar a sociedade, as circunstâncias frequentemente exigem aceitação, uma permeabilidade que seja sincera e às vezes até a renúncia. Mas para isso a imaginação precisa funcionar melhor que os punhos e o gogó.