Vício da República e o que é de cada um

Vício da República e o que é de cada um

Paulo Rosenbaum

14 Abril 2017 | 18h30

 

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Estava em duvida, desembarquei numa Republica, num Império, em algum protetorado, numa colônia sem regras? Conhecia aqueles homens que estavam nos dizendo que o ouro resolve. Resolve quase tudo. Não seria o valor, nem o peso, nem as vantagens, apenas sua coloração dourada, o símbolo do poder que agora entrara em seu trigésimo ciclo. Não havia virtude, nem mesmo palco, nem quem olhasse nos seus olhos. Fiquei sozinho observando a tela de depoimentos. Sob uma branda melancolia pensei que uma confissão deve ter algum valor. Um valor para quem confessa, alguma paz para quem escuta. Mas ali, ali não havia nada. Entrelaçados, o que era público foi escravizado pelo privado e, estranhos, tornamo-nos alheios ao que se passava. Beatificados com valores sem significado. Uma consciência se turva, acentua-se durante a noite, quando os sons declinam e o eco que volta é desolador. Aquele no qual se recebe de volta apenas o esqueleto do silencio. Doravante quem responderá pela politica? Do perturbador vácuo, ao ritmo de ausências a quem recorrer? O mundo interno não pode comportar tanta concorrência. Foi ali, no instante, — sempre o instante salvador — que lembrei de Borges. O escritor que nos contou que tudo é instrumento, tudo é harpa, tudo é ferramenta: os êxtases e os infortúnios, a dificuldade e a descrença, a perseguição e a vitimização, a naturalização do desprezo, o lamento esquecido, a melodia do deboche.

Então entrei no silencio protetor, no mar de singularidades, mergulhei no destino intimo dos naufrágios. Neles se pode achar um outro ritmo, a rima de uma historia que não é só momento. Enxergar o benefício da turbulência, o inexato como guia, o incerto como fuga possível. Transformar uma natureza passa a ser realidade. Vingamos sem destruir, rezamos sem euforia: mudaríamos o mundo sem desistir dele. Assim uma filarmônica inteira nos regeria diante de um universo que alienaria apenas o que não faz mais sentido.

Se o Vício é da República, a abstinência será nossa. Não serão juízes que nos dirão onde trilhar. Andaremos entre paisagens que eles não viram, descobriremos outras respostas para as velhas e aditas perguntas e encerraremos o ciclo de roubos com ofertas criativas. O fim do derrame de impostos vira da mais solene resistência. Nosso escape será a poesia, destarte a poesia ultrapasse as fronteiras da fuga e da contemplação. Revolver as mãos comprometidas, estas bocas que se abrem à sedução, inutilizar as regras que oprimiram o País. Impor enfim um outro código ao senado e aos faraós dos desvios.

Recusamos sangue não porque prezamos jardins ou respeitamos flores. Recusamos a violência não porque o pacifismo nos violou com sua ingenuidade, mas porque já conseguimos enxergar as leis de ida e volta. A luta contra a impunidade é apenas o estágio  zero. A guerra de um povo é a conquista de uma outra consciência, aquela que separa a esperança da manipulação, que descontamina a inocência da justiça. E, como o justo que conhece seus limites, será um crepúsculo sóbrio, sem a menor glória. Aoenas a suave decisão de encontrar o que é o de cada um. O que sempre foi de cada um. O que sempre será de cada um.

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