Yom Hashoah – nenhuma tinta reescreverá a história

Yom Hashoah – nenhuma tinta reescreverá a história

Paulo Rosenbaum

13 Abril 2018 | 10h18

 

 

 

Max Planck costumava dizer que uma tese estaria condenada quando não houvessem mais pessoas dispostas a defende-la. Neste sentido é possível afirmar que mesmo se todas  as teses estivessem proscritas, o dia de lembrança das vítimas do holocausto nazista sobreviveria.

Por decurso de prazo ou déficit de defensores a história do holocausto que os nazistas infligiram a pelo menos 6 milhões de judeus, permanecerá, mesmo contra todas as forças revisionistas que lutam para borrifa-la. Precisamente aí reside a força do “nunca mais”.

Este é o dia ideal para lembrar outros massacres e genocídios tão hediondos quanto aqueles que os judeus sofreram  — como o genocídio circassiano em 1864 que eliminou 1,5 milhão de seres humanos, o milhão de armênios dizimados pelos turcos entre 1915-1923, o extermínio em Ruanda de 800 mil pessoas da etnia tutsi em 1991 perpetrado pelos hutus  e, recentemente, minorias cristãs praticamente exterminadas pelos militantes terroristas do Estado islâmico, ou as ditaduras Maduro e Assad que hoje esmagam respectivamente o povo venezuelano e sírio — não parecem mobilizar suficientemente a comunidade internacional.

Agora que a Síria assume — num episódio digno de integrar o teatro do absurdo de Alfred Jarry — a presidência do Comitê de desarmamento da ONU e o clérigo chefe do Quds, o  braço armado da Guarda Revolucionária do regime teocrático iraniano, acaba de ameaçar destruir as cidades israelenses de Haifa e Tel Aviv — é difícil imaginar um mundo com inversões tão bizarras.

Neste dia em que se rendem homenagens à memória dos seis milhões de judeus mortos é preciso ir além do slogan “nunca mais”. É preciso, por exemplo, que as mídias jornalística e televisiva parem de produzir manchetes enganosas, como recentemente fez o site Uol.  Pois este portal produziu uma autêntica fake news quando ilustrou  a manchete dos conflitos de Gaza colocando fotos ilustrativas da matéria crianças vitimas dos ataques de armas químicas lançadas contra a população civil pela associação entre Irã-Siria com a colaboração russa.

A retroalimentação contemporânea do velho-novo antissemitismo obedece duas vertentes : 1- a máxima cunhada pelo filósofo francês Bernard-Henry Levy de que as duas grandes religiões  contemporâneas são o antissionismo e o antiamericanismo 2- a construção de uma aberrante imagem negativa a partir de uma política xenofóbica seletiva: fica interditada qualquer menção acerca dos problemas e desafios causados pela maciça imigração para a Europa, porém passou a ser aceitável  que discursos da extrema direita e da extrema esquerda, evoquem, de forma quase uníssona, toda sua verve antissemita sob o escudo de uma crítica ao Estado de Israel.

Não que o Estado Hebreu não cometa equívocos que estejam acima das cobranças da comunidade internacional, mas chama a atenção o alarmante número de ações que o condenam diplomaticamente. Justo um País que  longe de ser perfeito aceita a igualdade de gêneros, não discrimina minorias, árabes israelenses tem os mesmos direitos e deveres, protege a liberdade religiosa, e acolhe a diversidade humana. A lógica pode ser invertida. É exatamente porque os líderes entendem o que significaria a paz e a criação de dois Estado que apostam na tática do terror. Ao contrário da população lideranças como a do Hamas tem interesses pecuniários evidentes para não desejar a paz. Acusa-se com enorme facilidade o único país com democracia estável no qual nunca houve apartheid, ao contrario do que os detratores argumentam.

Torna-se fundamental analisar a verdadeira desproporção. Quase 70 % das ações de reuniões do Conselho de Segurança foram para discutir sanções contra Israel. Em estudos recentes 66% dos norte americanos não acreditam que o holocausto realmente tenha ocorrido. A Europa registrou a maior onda de ataques contra instituições judaicas. A mais intensa desde o período pré segunda guerra mundial.

Entre nós mais recentemente um suplente do Psol produziu um libelo antissemita clássico, descobriu-se que “militantes de esquerda” da Faculdade de Direito da Usp foram capazes de elaborar um “fichamento” com perfil dos estudantes e ali escancarou-se toda  taxonomia racista e beligerante desse grupo de patrulhadores da vida alheia. Alguém foi ali “fichado”pelos nobres futuros advogados como: “ideologia desconhecida, judia” sic (ver ilustração). Em outro evento, no ano retrasado, também em pleno campus da Usp em um evento no qual se discutia a matriz ideológica “nacional- desenvolvimentista”, a plateia pediu em coro “o fim de Israel” .

O que isso significa? É literalmente o fim de uma era? O que vêm sendo ensinado nas Universidades? Qual é a versão predominantemente? O sonho de liberdade foi substituído por uma série de equívocos, pregados por uma subsidiada distorção persistente.  E não há uma matriz ideológica única.  Frequentemente a judeofobia emerge de uma esquerda retrógrada que parece estar se unido ao que há de pior da direita, para que ambas vociferem fórmulas históricas malignas, cuja repetição costuma evoluir para a catástrofe.

Já é tempo de uma profunda reavaliação de valores e colocar limites, dando um basta definitivo na insensatez.

Ou não, desceremos coletivamente ao todos contra todos, e colheremos os magníficos frutos do eterno retorno à barbárie.