A guinada à direita da América Latina

Silvia Feola

10 Dezembro 2015 | 10h13

Nas últimas semanas, a América Latina viu governos de esquerda que ascenderam quase simultaneamente ao poder na última década perderem terreno e abrirem espaço para uma volta da direita, um revés que pode acontecer no continente como um todo.

Mauricio Macri, de centro-direita, foi eleito no final de novembro o novo presidente argentino, encerrando mais de uma década de governo Kirchner.

Na Venezuela, a aliança de oposição MUD (Mesa de Unidade Democrática) levou dois terços dos assentos da Assembleia Nacional, uma vitória expressiva que mostra o tamanho da insatisfação do povo venezuelano com o partido governista PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela).

O Brasil vive uma forte crise política, alimentada pelo alto escalão do governo diante da brecha dada pela crise econômica, a alta da inflação e o descontentamento da população com a presidenta eleita. O processo de impeachment contra Dilma tornou-se uma realidade.


Ainda que para muitos de nós doa vislumbrar o futuro do continente nas mãos do “outro” é preciso admitir que a esquerda que governou a América Latina nos últimos dez anos não é bem a esquerda que idealizamos como o baluarte das ações sociais.

As conquistas que levaram à diminuição das desigualdades sociais (civis e econômicas) foram decididamente importantes, mas vieram acompanhadas dos mais estapafúrdios atos.

Inúmeras teorias da conspiração foram usadas para explicar problemas internos por Maduro, Christina e Rafael Correa; censuras à imprensa na Venezuela, Argentina e Equador; repressão ao movimento estudantil e aos protestos da oposição que culminaram com a prisão de governantes opositores na Venezuela; incontáveis denúncias de corrupção na Argentina, Venezuela, e até mesmo no Chile de Bachelet.

Salvo o Uruguai, é preciso repensar quem foi a esquerda que assumiu o poder no continente e por que essa sai de cena tão mal na fita.