Por que quem é contra o impeachment não está sendo fiel ao PT

Silvia Feola

21 Março 2016 | 14h01

A dicotomia bons e maus, justos e injustos, corruptos e não-corruptos, PT e PSDB, não tem hoje mais plausibilidade. A única função que esse tipo de divisão excludente cumpre é a de afastar as verdades dos fatos e de promover o ódio generalizado, dando margem para que, quem realmente se beneficia com a queda do governo Dilma, possa agir impunemente.

Quem defende a permanência de Dilma – pelo menos até o atual momento, em que não há de fato provas relevantes para o uso desse tipo de mecanismo político – não está aliado ao PT.

Pelo contrário, são pessoas que um dia acreditaram – ou não – que o PT colaboraria para um país melhor, mas se desiludiram com o partido quando entenderam que a chamada “governabilidade” não era nada além de alianças antiéticas e perigosas.

Mas essa prerrogativa de alianças parece ser uma necessidade de qualquer partido – o que de modo nenhum exime o PT de suas culpas – mas faz entender que o poder corrupto está instaurado em Brasília no mais alto escalão e que derrubar um peão como bode-expiatório não vai levar a um país “mais justo e livre de corruptos”, principalmente se os meios usados para tanto não forem tão legítimos assim.


Quem tenta ludibriar o coletivo, promovendo o “nós x eles” não pode estar bem intencionado: isso, aliado ao frágil momento econômico, permitiu que áudios pessoais de um ex-presidente fossem divulgados.

Não, áudios pessoais não podem ser classificados como em “interesse da república”.

Não, a nomeação de Lula como Ministro da Casa Civil é antiética, mas não pode ser caracterizada como golpe de Estado. Golpe de Estado é quando um governo democraticamente eleito é derrubado por forças internas e externas atuando geralmente em conjunto.

Como bem lembrou Jânio de Freitas essa semana, FHC nomeou Gilmar Mendes nos mesmos moldes em que Lula foi nomeado, a fim de protegê-lo de acusações de atos ilícitos. De novo, isso não exime o PT, mas mostra que os mesmos mecanismos estão sendo usados há décadas.

Só que a Lava-Jato trouxe a esperança de que a queda do PT possa ser o início da queda da corrupção generalizada. Porém, pelos sinais enviados até agora, isso não parece verdade. Se fosse esse o caso, então por que os rumores (bastante plausíveis) de que Temer e o PMDB já estariam articulando a saída do governo? A única razão possível é a de que veem indícios de que quem quer que dê continuidade, estará necessariamente atrelado a eles.

Posto nesses termos, mais parece que os que berram “Fora Dilma!” são aliados os do PMDB do que apenas pessoas cansadas da corrupção. O que também não é verdade.

Assim como não é verdade que os que gritam “Não vai ter Golpe” são aliados do PT. É que o rancor explícito contra o PT trouxe a necessidade de a esquerda tentar reafirmar as qualidades de um governo democraticamente eleito, em nome da soberania das leis.

A maior parte da esquerda não é um grande vilão, assim como também não o é a maior parte da direita. A esquerda não existe a partir de um complô dos meios universitários, que buscam assim angariar mais dinheiro para seus projetos de pesquisa, como chegou a sugerir um colunista da grande mídia essa semana.

O que o meio universitário – de humanas, principalmente, mas não só – promove é a leitura exaustiva de textos sobre política e história, a partir dos quais o bom- senso de cada um trabalha sobre o que lhe é válido ou não.

Agora, quem defende a permanência de Dilma, não defende a tese maquiaveliânica de que os “fins justificam os meios”. Maquiavel não era de esquerda.

Quem defende o governo eleito, apenas interpreta a incitação à divisão entre “nós x eles” como um meio eficaz de ludibriar o coletivo; um modo nada bem intencionado de promover o PT como o grande inimigo da nação, fazendo crer que o fim do PT será o fim da corrupção.

A crença geral de que se Sergio Moro não for capaz de destituir a todos os corruptos, no mínimo ele deixará bem avisado que os que estão soltos correm perigo não condiz com os fatos reais.

Como ele seria capaz de qualquer uma dessas coisas? Se a corrupção é tão altamente estruturada, qualquer um que chegue para governar estará imerso em relações já construídas que asseguram o privilégio de roubar às escuras.

É preciso nomear os responsáveis, mas não a qualquer preço. Antes de tudo, é preciso repensar as estruturas institucionais.

Talvez para o Brasil como um todo a saída não possa ser pela esquerda. Mas certamente tem de ser institucional, pelas vias democráticas.