Publicidade infantil reforça desigualdade de gênero

Silvia Feola

10 Outubro 2016 | 13h28

A grande maioria dos comerciais dos canais infantis de TV por assinatura reforçam estereótipos de gêneros e definitivamente não contribuem para uma sociedade mais igualitária entre homens e mulheres, meninos e meninas.

Tudo o que é delicado existe num mundo mágico e cor-de-rosa, protagonizado por meninas que, felizes, trocam fraldas sujas e dão de comer aos bebês, ou brincam docemente com passarinhos coloridos presos numa gaiola (!), para citar alguns exemplos.

Tudo o que bruto, ágil, aventureiro e até mesmo violento (!), é vivenciado na tela exclusivamente por meninos. Meninos não protagonizam comerciais doces de passarinhos; pelo jeito, no máximo atuariam num comercial de estilingue se não pegasse tão mal vender estilingue nos dias de hoje.

Meninos vivem num mundo de carros e de lutas (!), no maior “american way of life”, cuja economia se baseia na indústria automobilística e de guerra.


Não me levem a mal, acho que os carrinhos são parte importante das brincadeiras infantis, para ambos os sexos, assim como as bonecas.

As crianças são extremamente curiosas com as coisas que pertencem ao mundo adulto. Carros e aviões são fascinantes, talvez porque sejam coisas grandes demais para andarem e voarem, porque são coisas vistas por elas o tempo todo, de perto ou de longe. Todos deveriam brincar de bonecas e aprenderem a vida da casa e a vida em sociedade é papel de todos nós, não importa o sexo.

A questão é que esses comerciais reunidos parecem passar a mensagem de que só as meninas são doces e gentis (e por um segundo quase podem ser resumidas a isso), e aos garotos cabe exercitar tudo aquilo que há de agressivo na natureza humana.

Contudo, o ser humano é mais complexo do que isso. Afinal, todos temos nossos momentos doces e de agressividade.

Quando ouvimos falar de equidade de gênero podemos ter a falsa impressão de que falamos em anular as diferenças entre o masculino e o feminino. Mas a ideia não é essa.

Determinar precisamente em que medida homem e mulher diferem naturalmente entre si é provavelmente uma tarefa impossível de ser executada. Como o homem vive em sociedade, é muito difícil saber de que modo o direcionamento dado à natureza influencia o que essa natureza verdadeiramente é.

Mas desde sempre é importante atribuirmos à natureza um sentido que faça com que todos vivam melhor e com mais equidade, na vida que levamos em comum.

É claro que as crianças são influenciadas por inúmeros fatores – como todos nós adultos também o somos – e que o comercial de TV (esperamos) não é tudo o que ela tem como referência nesse sentido.

Talvez o próprio comercial tenha sido criado desse modo no intuito de atender à crença ainda comum a muitos pais de que o mundo feminino é rosa e o masculino pintado com tintas de ação.

Mas a coluna da semana passada da Sonia Racy, no Estadão, traz a informação de que um estudo da Heads Propaganda – a ser apresentado no fim do mês em um evento da ONU Mulheres, no Rio – conclui que a publicidade no Brasil não reflete sua diversidade de raça e gênero.

De acordo com a pesquisa, que analisou 3 mil filmes publicitários, 80% dos protagonistas dos comerciais são brancos, 26% reforçam estereótipos sobre homens e mulheres e 74% não contribuem para a equidade de gêneros.

O que parece é que a cultura está em plena mudança e que esses comerciais já dialogam com o passado.