Erros de interpretação sobre Paris

Geraldo Miniuci

13 Janeiro 2015 | 05h12

Há dois erros de interpretação a respeito do atentado do último dia 7 de janeiro, em Paris, contra o jornal Charlie Hebdo, que resultou na morte de 12 pessoas. Em primeiro lugar, ele vem sendo apresentado sobretudo como aquilo que não é: um atentado contra a liberdade de imprensa. A imprensa nunca foi livre, pois ou ela pertence ao poder público, ou ao poder privado. Não há uma terceira opção. O que existe, no máximo, é a liberdade de empresa, cujos proprietários têm o poder de decidir o que e como poderá ou não ser divulgado, conforme suas respectivas noções de interesse, conveniência e oportunidade. Foi preciso criar o Charlie Hebdo para que se publicassem caricaturas vistas por muitos como de mau gosto, agressivas, desrespeitosas, quando não pura blasfêmia. Na capa da edição de 9 de novembro de 2011, por exemplo, sob o título “O amor é mais forte do que o ódio”, um dos cartunistas mortos no atentado aparece aos beijos com um mulá; já na edição de 7 de novembro de 2012, são desenhados Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo, um atrás do outro, fazendo sexo anal, sob o título “Monsenhor Vint-Trois tem três papais”, numa alusão às posições do Cardeal André Vint-Trois contra o casamento homossexual; já na de 25 de junho de 2013, um homem pergunta a um judeu ortodoxo: “de que adianta ser judeu, se temos as mesmas posições que católicos e muçulmanos”, ao que o ortodoxo responde: “os católicos e os muçulmanos, nós os enrabamos”; por fim, para ficarmos com mais um exemplo, na edição de 27 de setembro de 2013, há um judeu ortodoxo que leva um clérigo muçulmano numa cadeira de rodas, sob o título “Intocáveis”, com ambos dizendo “Proibido satirizar”. Essas e outras caricaturas dificilmente apareceriam no conservador Le Figaro ou em qualquer outro periódico de grande circulação que, numa democracia liberal, tem o poder de fazer aquilo que o Estado não pode: censurar, impedindo a publicação.

O atentado em Paris foi, portanto, uma ação criminosa praticada contra uma determinada empresa, formada por jornalistas de esquerda, anarquistas e ambientalistas, cujo alvo preferencial são não somente as grandes religiões, mas também diversas figuras da cena política francesa, tanto do governo, como da oposição, sobretudo da extrema direita.

Além do mais, esse crime vem sendo apresentado não apenas como obra de pessoas individualmente consideradas, mas como ação de indivíduos identificados com determinada religião, como se tivessem agido na condição de representantes de uma comunidade maior, no caso, a comunidade islâmica. Se fossem brancos e de origem cristã, provavelmente seriam retratados como esquizofrênicos ou portadores de algum outro tipo de loucura, ainda que não houvesse laudo médico conclusivo nesse sentido. É interessante resumir aqui dois episódios ocorridos na mesma França, pouco antes do Natal. O primeiro deles passou-se em Dijon, no dia 21 de dezembro: um homem, que teria bradado “Alá Akbar” (Deus é grande), jogou seu carro contra um grupo de 13 pessoas, ferindo gravemente várias delas; o segundo, no dia 22, foi em Nantes, quando outro homem atropelou igualmente uma multidão que se encontrava no mercado de Natal, matando uma pessoa e ferindo outras tantas. Do mesmo modo, aqui também ouviu-se “Alá Akbar”. Apesar da imediata associação ao terrorismo islâmico feita pela imprensa, apurou posteriormente o ministério público francês que, no caso do ataque em Dijon, o autor sofria de esquizofrenia havia 13 anos e teria gritado “Alá Akbar” apenas para criar coragem; no de Nantes, tratava-se de um desempregado, igualmente com problemas mentais, mas o grito “Alá Akbar” foi dado por um transeunte que pedia socorro a Deus para ajudar as vítimas.

Ainda que a chacina em Paris esteja associada ao Estado Islâmico ou à Al Qaida, retrata-se o episódio como um atentado contra o mundo ocidental e os valores de uma sociedade aberta praticado por pessoas movidas por uma estranha crença religiosa, que transforma jovens mulçumanos em fanáticos e, depois, em assassinos. Quando manifestantes do movimento “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente” foram às ruas, na semana passada, em Dresden, na Alemanha, alguns levaram, além de bandeiras, cruzes e também cantaram canções de Natal. A ninguém ocorreu dizer que eram radicais ou fundamentalistas cristãos, como também a ninguém ocorre chamar de fanáticos do cristianismo a direita religiosa nos Estados Unidos. Quando isso é feito, separa-se o joio do trigo, dizendo-se “nem todos os cristãos são assim”. De fato não são, mas essa diferenciação somente é possível na perspectiva dos próprios cristãos, quando lançam um olhar sobre si mesmos. No momento em que mudam o enfoque e olham para os muçulmanos, essa posição de observador transforma o objeto observado num todo homogêneo, não permitindo que sejam notadas distinções nem entre as diversas confissões existentes no seio do islamismo, nem entre os vários graus de adesão e de religiosidade de cada pessoa criada na fé islâmica. Sob a perspectiva do observador cristão e ocidental, todos os muçulmanos se tornam “farinha do mesmo saco”, o que os coloca num papel defensivo e os obriga constantemente a desautorizar os atos violentos cometidos por pessoas que nunca os representaram.