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Brasil » Mulheres e negros: coisa de petista

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Geraldo Miniuci

18 Maio 2016 | 10h39

Haveria alguma diferença substantiva se mulheres e negros fizessem parte do governo Temer? Ou seria essa uma preocupação irrelevante, seja porque se considera que o debate se circunscreve menos a pessoas do que a pautas e programas, seja porque se entende que o único critério a nortear a escolha de uma equipe de governo deva ser a capacitação técnica para o cargo, independentemente de gênero, raça ou religião?

A agenda de qualquer governo comporta diversos temas, alguns inevitáveis, como os assuntos de natureza econômica, outros não menos importantes, mas que, conforme a orientação política do governo, podem ser negligenciados, como a desigualdade de gênero e os preconceitos. Em outras palavras, governos não toleram altas de taxas de inflação ou desemprego, mas alguns governos tolerarão o patriarcalismo e o racismo.

Evidentemente que, para enfrentar os problemas econômicos, pouco importam o gênero ou a cor da pele das autoridades, assim como a pauta do governo Temer não seria necessariamente mais progressista se houvesse mulheres e negros em sua equipe. Não há relação entre gênero, raça, orientação sexual e preferência político-partidária. Existem mulheres, negros e gays que são conservadores, simpatizantes do autoritarismo, liberais, defensores da livre-iniciativa e do mérito individual, assim como, em sentido oposto, haverá mulheres, negros e gays que se baterão em defesa do comunitarismo e contra a desigualdade.

Se, por um lado, a solução de problemas econômicos ou mesmo a orientação ideológica de um governo independem de gênero ou raça, a luta contra a desigualdade e o preconceito, por outro lado, exige, pela própria natureza da questão, que essas características sejam consideradas, no momento em que forem escolhidas as autoridades dos principais escalões do governo, a começar pelo primeiro. Por quê?

Existem, pelo menos, duas estratégias que podem ser adotadas, em conjunto ou separadamente, para combater discriminações: mediante a criação de órgãos específicos para tratar do tema ou, senão, promovendo a igualdade diretamente, distribuindo cargos em iguais proporções entre homens, mulheres, brancos e negros. No governo Dilma Rousseff, havia tanto um Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, como um número não muito grande, é verdade, mas relativamente maior de mulheres nos primeiros escalões da administração federal, incluindo a própria Presidência da República. Já no atual governo, nenhuma estratégia foi adotada: extinguiu-se o ministério e não se nomearam mulheres ou negros para os postos mais importantes. A desigualdade de gênero e o racismo, assim como outras discriminações, desapareceram da pauta. Na melhor das hipóteses, talvez venham a ocupar posição menor na agenda das prioridades, como se houvesse uma hierarquia, e as questões sociais não merecessem a mesma deferência reservada para os problemas econômicos. Afinal, numa equipe formada exclusivamente por homens brancos, por que o patriarcalismo e o racismo haveriam de ter a mesma importância que a inflação e o desemprego?

Semelhante omissão, característica do conservadorismo brasileiro, empurra os temas sociais para o colo da chamada esquerda. A luta pela igualdade e contra o preconceito torna-se “coisa de petista”. E o machismo, uma característica da direita – como se não houvesse comunista homofóbico, racista e patriarcal.

Essa postura assegura à esquerda representada pelo PT um pouco da identidade perdida já nos anos Lula, quando se formou um governo com quadros que hoje servem na equipe de Michel Temer: o mesmo Henrique Meirelles que presidiu o Banco Central de 2003 a 2011 chefia agora o Ministério da Fazenda, assim como outros ex-ministros de Dilma e Lula estão no primeiro escalão do atual governo. Se, nos planos político e econômico, pouco importa ser petista, tucano ou peemedebista, homem ou mulher, branco ou negro, no plano social, essas condições fazem diferença. Muito mais do que conservadora, a direita brasileira revela-se atrasada ao não incorporar em sua pauta temas que não são incompatíveis com seu programa econômico. Prefere, em vez disso, transformar os assuntos sociais em “coisa de petista” e optar pelo conservadorismo que projeta uma sociedade em que a influência religiosa chega ao primeiro escalão, as desigualdades e discriminações sejam lícitas, e da mulher não se espera muita coisa, a não ser que seja bela, recatada e do lar.

 

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