Nação e copa do mundo

Geraldo Miniuci

21 Maio 2014 | 06h26

Com a proximidade da copa do mundo, o verde-amarelo começa a ganhar as ruas, decorando bares, calçadas, casas e sítios de toda sorte. Em breve, a Nação brasileira estará em êxtase.

Mas, o que é Nação, seja ela brasileira, ucraniana ou russa? Trata-se de termo bastante impreciso. Em linhas gerais, pode-se dizer que ele designa uma invenção humana capaz de assegurar coesão de um determinado grupo social e de condicionar as ações de seus membros. Em nome da Nação, exige-se lealdade dos nacionais, que não poderão fugir à luta e ao dever de matar ou morrer em nome da pátria. Na organização das sociedades modernas, a ideia de Nação cumpre a função de uma norma fundamental que extrai sua validade de si mesma, não dependendo de mais nada, nem de ninguém para valer. Em outras palavras, a Nação é um valor em si. Apenas a ideia de Deus e a de pessoa humana ou de Indivíduo têm essas características. Mas, enquanto a ideia de Deus traz pretensões de universalidade, a de Indivíduo deságua no egoísmo e a de Nação, no provincianismo.

Em linhas gerais, pode-se dizer que, até a Revolução Francesa, as sociedades se organizavam em torno da ideia de Deus. Isso significa que os membros dessas sociedades eram leais à divindade e às instituições que agiam em nome dessa divindade. Naquele contexto, matava-se e morria-se em nome de Deus. Foi sobretudo durante o século XIX que a ideia de Nação se sedimentou e passou a dar substrato para um outro tipo de organização social: o Estado nacional. Em semelhante ambiente, Deus já não tinha mais a lealdade exclusiva de seus fieis, que passaram a ser leais também à Nação. Além de orações e cânticos religiosos, surgiram também o hino e outras músicas de conteúdo ufanista. Nalguns casos, Deus e Nação passaram a orientar a organização social, dando-lhes os fundamentos, como, por exemplo, na hipótese dos Estados nacionais com religião oficial. Noutros casos, há uma constante tensão entre Estado e religião, que se reflete nos modelos de Estado laico existentes, ora pensados no sentido de impedir que a religião interfira nos negócios do Estado, ora concebidos no sentido de, ao contrário, impedir que o Estado interfira nas instituições religiosas.

A Nação, como ideia, associada ao Estado, estrutura a ordem político-jurídica internacional e nacional e condiciona inúmeras ações e acontecimentos: o fascismo italiano, o III Reich, o protecionismo comercial em favor de segmentos nacionais ineficientes, a crise na Ucrânia, o separatismo, a revalidação de diplomas estrangeiros no Brasil, os passaportes, os vistos nos passaportes, as fronteiras nacionais, a copa do mundo, nada disso seria possível se não houvesse antes uma ideia orientadora de Nação, que estabelecesse os fundamentos das sociedades contemporâneas.

Além de fornecer lastro para desafiar o poder religioso e reorganizar a sociedade, a ideia de Nação estimulou também o surgimento de um novo indivíduo, inexistente noutros tempos, mas absolutamente corriqueiro nos dias de hoje: o patriota. Trata-se de um tipo que assume como verdadeiras as premissas do discurso nacionalista, não raro sem questioná-las ou mesmo percebê-las como um fenômeno histórico. Patriotas são sensíveis: ofendem-se quando sua Nação é criticada pelos estrangeiros e revoltam-se quando as críticas são feitas pelos próprios nacionais, frequentemente rotulados como traidores. Muitas vezes, protagonizam comportamentos que, vistos à distância, parecem bizarros. Durante as manifestações de junho de 2013 e nos meses que se seguiram, por exemplo, o patriotismo no Brasil esteve à flor da pele, embora a Nação brasileira nunca estivesse ameaçada por forças estrangeiras. Entoaram-se, no entanto, o hino nacional e outras canções com louvas ao Brasil e à brasilidade, seja por qual motivo fosse: por mais saúde, por mais educação, por mais transportes, contra os médicos cubanos, por menos impostos, contra a copa do mundo, contra a FIFA, enfim, na ausência de uma pauta concreta e menos contraditória, os símbolos nacionais tornaram-se o conteúdo de uma gente sem repertório.

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