Patriarcalismo e sedução

Geraldo Miniuci

17 Janeiro 2018 | 18h35

Na recente polêmica causada pelo manifesto que leva a assinatura da atriz Catherine Deneuve, há duas questões centrais, referentes às relações de gênero: a violência masculina denunciada por Oprah Winfrey e o galanteio, a cantada, o flerte, enfim, a sedução, igualmente masculina, defendida pela atriz francesa. Ambas são colocadas no contexto de uma sociedade regida por valores patriarcais, em que se espera dos homens virilidade e iniciativa da sedução, e das mulheres, fragilidade, submissão, quando não também infinita capacidade reprodutora.

O patriarcalismo constitui um código social de conduta que, não raro, invade e coloniza o ordenamento jurídico. Nele, há uma distribuição de papeis e de expectativas, bem como as condições de validade de uma relação de gênero, que, idealmente, deve ser heterossexual e produzir filhos. Ao homem, cabe-lhe, nesse contexto, a iniciativa da abordagem ou do flerte; à mulher, corresponder ou não à cantada que se lhe passa.

A violência na relação de gêneros, seja ela física ou verbal, ocorre no âmbito de um patriarcalismo radicalizado e sem freios, que começou a ser controlado a partir da II Guerra. No Brasil, até que se chegasse à lei Maria da Penha, um longo caminho precisou ser percorrido. Se houve tempo em que mulheres não votavam, em que o marido poderia pedir a anulação do casamento, caso descobrisse que contraíra núpcias com mulher deflorada, em que cabia ao homem a chefia do lar, se houve tempo em que a imaginação do legislador era orientada por valores que davam validade para dispositivos desse calibre, hoje muito disso faz parte da história.

O patriarcalismo, contudo, foi apenas depurado; ele não desapareceu. Alguns de seus dispositivos ainda existem – e com força. Um deles, o da iniciativa no jogo da sedução. A quem cabe?


Não há como proibir que uma pessoa tente seduzir outra, a menos que queiramos uma sociedade que se reproduza mediante casamentos que independam do consentimento dos nubentes, como os arranjados, em que pouco importam os sentimentos dos envolvidos. Se aceitarmos que todos são livres para escolher seus parceiros, aceitamos a autonomia de cada pessoa para decidir como fazer essa procura – e o momento em que deverá tornar explícitas suas intenções, sejam elas quais forem: do amor por uma noite ao amor pelo resto da vida.

Numa sociedade em que se reconhece e se respeita a autonomia individual, há forçosamente uma diferença entre o assédio, que viola a autonomia da pessoa assediada, e a sedução, que respeita a autonomia do sedutor, sem violar a da pessoa seduzida. No âmbito de uma sociedade liberal, há o flerte legítimo e o ilegítimo; o de bom gosto e o inconveniente, sendo inevitável refletir sobre a diferença entre ambos, a fim de que se estabeleça qual deles viola a autonomia individual e deve, portanto, ser prontamente reprimido.

Em suma, será legítimo seduzir, até o momento em que a sedução tornar-se inconveniente e não for mais desejada. Se não se respeitar a vontade da pessoa seduzida, uma sedução pode tornar-se estupro e perder toda legitimidade. Eis os limites que, em conjunto, as intervenções lideradas por Oprah Winfrey e Catherine Deneuve impõem ao patriarcalismo. Não há contradição entre ambas. Elas se complementam: enquanto violência significa desrespeito a direito fundamental – e a não-violência é pressuposto básico para a relação entre homens e mulheres –, a sedução refere-se ao desempenho de certo papel na sociedade. A denúncia de assédio e o manifesto contra o “denuncismo” estabelecem limites ao patriarcalismo: de um lado, condena-lhe toda a violência, de outro, legitima um tipo de sedução masculina, próprio de sociedades patriarcais.

A sedução pode ser definida como um processo em que uma pessoa tenta conquistar outra. Na prática, nem sempre se sabe com facilidade quem seduz e quem é seduzido. Numa sociedade patriarcal, porém, espera-se que seja do homem – jamais da mulher – a iniciativa da primeira abordagem, da primeira declaração ou do primeiro beijo. As manifestações de Deneuve, associadas às de Winfrey, reformam, mas não revogam essa parte do contrato social que rege as relações de gênero no patriarcalismo. Impede-se o assédio violento, mas ainda cabe ao homem a iniciativa de importunar. Não há mudança de paradigma em jogo, apenas a tentativa de domesticar e colocar freios num tipo específico de conduta, praticada por um tipo específico de homem, numa ordem ainda patriarcal.