Sobre macacos e bananas

Geraldo Miniuci

05 Maio 2014 | 06h12

Com não rara frequência, os meios de comunicações noticiam manifestações racistas em estádios de futebol, em que torcedores procuram ofender jogadores negros, atirando-lhes bananas, como forma de chamá-los de “macacos”. Recentemente, o lateral direito do Barcelona, Daniel Alves, foi vítima de uma dessas demonstrações. O jogador, no entanto, em vez de ofender-se, comeu a banana. Sua atitude recebeu o apoio do colega Neymar, que, orientado por agência de publicidade, declarou: “somos todos macacos”, e esse mote terminou por suscitar um debate, em que se identificam duas posições: num lado, encontram-se aqueles que pretendem transformar a ofensa numa virtude e neutralizar os efeitos negativos que o xingamento possa ter; no outro, aqueles que não aceitam fazer pouco caso de uma ofensa como essa de comparar pessoas com animais.

O processo de mudar o sentido de alguma coisa denomina-se ressignificação, e uma das mais importantes tentativas de ressignificar uma ofensa foi feita pelas mulheres, em 2011, quando, diante de diversos casos de violência sexual na Universidade de Toronto, um policial sugeriu que elas não se vestissem mais como vadias para que não fossem atacadas. Interpretada como machista e preconceituosa, essa recomendação detonou protestos não somente no Canadá, mas mundo afora, com manifestações que se denominaram “a marcha das vadias”, nas quais as participantes trajavam não somente roupas comuns, mas também adereços considerados provocantes, como blusas transparentes e lingeries.

Para que tenha legitimidade, qualquer tentativa de mudar o significado de algo até então considerado ofensivo à honra ou à dignidade humana exige a anuência de quem é vítima desse tipo de agressão. De nada adiantaria, por exemplo, que homens se autodenominassem vadias e saíssem às ruas em protesto, caso não houvesse sobretudo mulheres dispostas a agir no mesmo sentido.

Tal como o machismo, o racismo também comporta duas dimensões: de um lado, temos a perspectiva da pessoa que sofre direta e diariamente as ações preconceituosas praticadas por racistas; de outro, temos a perspectiva de quem, não sendo vítima, nem agressor, apenas observa os racistas e suas vítimas. Quem terá legitimidade para apresentar-se no espaço público e assumir como sua a identidade de macaco: o participante que sofre as agressões ou o observador que apenas olha e interpreta?

Os participantes vivem a experiência do racismo e podem reagir a ela de duas formas: como indivíduos ou como coletividade. Num caso, as reações podem ser isoladas e descoordenadas; noutro, elas se realizam graças a ação de líderes e de indivíduos decididos a agir em conjunto, de forma coordenada. A coesão de uma coletividade, porém, exige, além de lideranças, que os membros desse grupo compartilhem valores comuns e que, sobretudo, tenham ou construam uma consciência comum. Os símbolos que identificam e diferenciam os grupos sociais uns dos outros desempenham, nesse sentido, papel fundamental, tanto na identidade dos indivíduos, como na do grupo, mas cabe apenas a eles eleger as figuras que devem representá-los e identificá-los.

A quem observa, compete-lhe não interferir em ações das quais não participa; ao contrário, cabe-lhe, em vez disso, compreender o que torna possível determinada situação ou determinado conjunto de crenças e valores. Por exemplo, por que a figura do macaco é ofensiva? Um observador dirá que, para que alguém se sinta ofendido com algo dito ou feito pelo ofensor, é preciso que ambos, ofendido e ofensor, compartilhem algumas concepções, algumas crenças, alguns valores, do contrário, a ofensa não produz efeito. Se não houver consenso que macacos são seres irracionais e inferiores, ninguém se ofenderá quando for comparado a eles. Ocorre, porém, que existe essa crença, e ela é compartilhada tanto por quem ofende, como por quem é ofendido. Ambos aceitam que entre macacos e pessoas exista uma hierarquia, e que seres humanos são superiores. Chamar alguém de macaco, nesse sentido, significa negar-lhe a humanidade e rebaixá-lo na escala social.

Essa noção de inferioridade do macaco, porém, somente é possível por causa da noção de superioridade do ser humano, que se imagina criado à imagem e semelhança de Deus ou, senão, que se percebe num estágio avançado na evolução de sua espécie e vê nisso uma justificativa para rebaixar e desprezar os demais seres. Dominante, essa visão de mundo foi originalmente imposta pelos brancos, por meio de sua religião e de sua ciência, e incorporada pelos negros, que se cristianizaram e assumiram as concepções de vida de seu opressor, estabelecendo com ele uma interlocução em que quando uns atiram bananas, outros se ofendem com elas, pois raça, macacos e bananas têm, nesse contexto, um significado próprio, porém compreensível apenas pelos participantes da ação, isto é, quem ofende e quem é ofendido.

A proposta de assumir o macaco como símbolo, conferindo-lhe um novo significado, distinto do tradicional, poderá surtir o pretendido efeito de esvaziar o discurso racista, desde que seja encampada pelo grupo diretamente interessado. Se apenas os brancos se declararem macacos, o gesto de atirar bananas numa pessoa de pele escura continuará carregado de significado ofensivo, e quanto maior a dor e a revolta do ofendido, maior será o prazer do ofensor.

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