Jovens da era digital reabilitaram Belchior da pecha de chato

Jovens da era digital reabilitaram Belchior da pecha de chato

Edmundo Leite

03 Maio 2017 | 21h31

Muito antes de receber milhares de  nas redes sociais, Belchior atravessou os anos 80 e 90 sendo tachado de chato. Um pouco por culpa de Raul Seixas e outro tanto por colunistas musicais ferozes, era esse o adjetivo usado entre a moçada e na imprensa para se referir a Belchior. Na verdade, Belchior não existia naqueles duas décadas para a imensa maioria. Não era nem uma velha roupa colorida que não servia mais, pois nunca havia sido usada por aqueles jovens.

Belchior e seu bigodão eram a coisa mais anacrônica esteticamente e musicalmente para quem começou a escutar rock com ‘Você não soube me amar’, da Blitz, e atravessou os oitenta ao som de Ultraje a Rigor, Barão Vermelho, com e sem Cazuza, Paralamas do Sucesso, Titãs, Legião Urbana, Camisa de Vênus, Ira!, Michael Jackson, Madonna, U2, Smiths ou ouvindo Kiss, AC/DC e Iron Maiden em alto volume. O único bigodão tolerado era o do Freddie Mercury.

Ninguém tinha paciência para escutar Belchior, aquele som e aquelas letras. Descartava-se nos primeiros segundos de audição. Medo de Avião, de um 1979 que parecia mais longínquo que o último ano da década anterior, era lembrada quase sempre como uma piada. Belchior era uma caricatura a mais naquele quadro com todos os nomes da MPB vendido nas feirinhas hippies. Ou uma caricatura sonora quando imitado por comediantes, que geralmente cantavam um trecho de ‘Paralelas’ remedando o som anasalado e o sotaque do cantor.


O aclamado ‘Alucinação’ não era mais visto nas prateleiras das lojas e não se via nenhum disco de Belchior na discoteca ou no horizonte de ninguém. Nem em fitas. Conhecia-se ‘Como Nossos Pais’, é claro, por causa de Elis, e sabia-se que era de Belchior. Mas isso não importava muito. Dizia-se “gosto das músicas de Belchior, mas na voz dos outros”.

A pecha de chato de Belchior começou ainda nos anos 70 e atingiu o artista em vôo alto no mesmo 1976 do sucesso de ‘Alucinação’. A espinafrada de Raul Seixas e Paulo Coelho na esculhambação de ‘Eu Também vou Reclamar’ daquele ano vinha com três menções a ‘Apenas um rapaz latino americano’:

Apesar dessa voz chata e renitente eu não estou aqui pra me queixar e nem sou apenas o cantor…

Agora eu sou apenas um rapaz latino-americano sem cheiro nem sabor…

Mas agora eu também resolvi dar uma queixadinha porque sou um rapaz latino-americano que também sabe se lamentar…

Na imprensa, críticos também sentiam-se bem à vontade para, sem cerimônia, tachar Belchior de chato nas páginas de jornal. Numa entrevista  ao Jornal do Brasil publicada em 30 de agosto 1976, a alcunha era citada verbalmente pela repórter Cleusa Maria numa das perguntas, dizendo que já fora usada anteriormente: “Já foi chamado por um crítico de chato bem sucedido. O que acha disso?”

Em 1982, uma crítica publicada no Jornal da Tarde sobre o show de lançamento do disco Paraíso colocava o adjetivo no título. E para não haver dúvida sobre o nível de chatice, não era só chato, mas chatíssimo. “O Paraíso de Belchior: chatíssimo”, texto assinado por Wladimir Soares, trazia ainda os adjetivos enfadonho, incômodo e entediante como sinônimo de chato.

“Ao contrário de outros compositores sem voz, Belchior não vem amadurecendo seu estilo interpretativo… Por causa desse falha, a tendência natural do espetáculo é se tornar enfadonho. …Isso não impede, porém que o show se arraste numa repetição  incômoda e entediante. Nem os aplausos transformam Belchior num intérprete instigante.

Zuza Homem de Mello, comentando o disco Paraíso no Estadão, fulminou: “Quem tiver paciência de ouvir até o fim esse novo disco “Paraíso” (e verá como o título é uma das melhores piadas do ano) pode perguntar: onde ele quer chegar?”

Era sim que Belchior era tratado naqueles dias. E continuaria a ser tratado nos 90.

Involuntariamente, o já morto Raul voltaria a pregar a etiqueta de chato nas costas de Belchior na última década do século 20. A implicância boba do público do baiano com o cearense aumentaria em 1992 quando foi lançado um disco póstumo com raridades de Raul Seixas e informado no encarte que uma música inédita (Sou o que Sou) tinha sido descartada em 1978 por se parecer muito com Belchior. Isso fez com que muitos fãs assumissem ainda mais para si uma rixa estética quem nem mesmo Raul levava a sério.

A despeito disso, Belchior amava Raul. Num disco que ninguém ouviu, Cenas do Próximo Capítulo (1984) regravou ‘Ouro de Tolo’, um dos grandes clássicos de Raul. A música seria mantida no repertório dos shows de Belchior por anos, com direito a palavras carinhosas ao colega. Em 1989, quando Raul estava perto de seus momentos finais, Belchior esteve no show da turnê com Marcelo Nova em Recife e foi entrevistado no meio do público pela rádio Transamérica: “É uma grande emoção. Raul sempre é uma emoção. É a fonte de muita alegria. É uma celebração fantástica a palavra e  a presença carismática de Raul. Que é um dos pais do rock… um dos pais da nova música popular”, disse, corrigindo-se no final para não reduzir Raul ao rock.

A má vontade de uma parte da imprensa nos 80/90 para com Belchior pode ser atestada na auto-crítica que o repórter Jotabê Medeiros fez no ano passado ao contar no site Livre Opinião como esnobou a chance de entrevistar o artista:

“Conforme começou minha caminhada rumo ao jornalismo cultural, eu me tornei consequentemente blasé e pedante e a única vez que tive a chance de falar com Belchior eu a desperdicei como um otário. Eu me patrulhava, muitos aspirantes a yuppie com os quais eu dividia mesas de bares achavam Belchior brega. Fui superficial e tolo.”

Jotabê agora está prestes a lançar uma aguardada biografia de Belchior.

Enquanto o livro não chega, a melhor literatura de fôlego e impressa que se tem sobre Belchior e sua obra está num livro sobre Roberto Carlos: ‘Como dois e dois são cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Vanderléa)’, do jornalista Pedro Alexandre Sanches. Pedro (um Belchior do jornalismo musical) escreveu o livro sobre a toda a obra de Roberto, lançado antes da biografia escrita por Paulo César Araújo, e teve uma grande sacada de escrever seis capítulos-pausa com a trajetória de seis artistas que chama de anticarlistas: Marcos Valle, Wilson Simonal, Tim Maia, Raul Seixas, Rita Lee e Belchior. A carreira e obra dos seis é esmiuçada em contra-ponto com a do Rei, mas o livro de 2004 não teve a repercussão merecida. Generosamente, Pedro compartilhou a íntegra do capítulo sobre Belchior no seu site Farofa-fá.

A mudança de percepção relatada por Jotabê é uma amostra de um fenômeno maior que operou para a reabilitação de Belchior e sua obra.

Com a virada do milênio, o tempo, essa entidade tão presente na obra do compositor, começou suas artimanhas em favor do até então chato. Jovens começaram a amadurecer e velhos, rejuvenescer. Público, jornalistas e artistas passaram a olhar para trás, num movimento cíclico natural, mas desta vez amplificado pela internet.

Na Folha de S. Paulo, Pedro Alexandre Sanches capitaneava a cobrança para que as grandes gravadoras relançassem obras importantes esquecidas de seu catálogo em CD. Na sua coluna Ruído, tinha uma seção intitulada “o não lançamento” em que apresentava um disco antigo, explicando sua importância e apresentando um pouco das músicas. Em 2001, o ‘Coração Selvagem’ do Belchior foi o escolhido: “A Warner dorme no ponto e tirou de catálogo”. Em outra frente, Ruy Castro reclamava  da falta de tato das gravadoras em lançar coletâneas mequetrefes em vez dos discos originais do imenso acervo de música brasileira.

Paralelamente, algumas gravadoras começaram a se mexer. Com o prestígio de Titãs que permitiu uma abertura inédita, o baterista Charles Gavin garimpava as relíquias nos arquivos das gravadoras Warner e Continental e as relançava em CD.  Marcelo Froes, jornalista, escritor e arqueólogo musical, fez o mesmo na Universal (antiga Philips/Polygram), CBS e outras, até fundar o seu próprio selo, o Discobertas, através do qual recoloca pérolas esquecidas da música brasileira de volta ao mercado.

Foi aí o jogo começou a virar para Belchior. Nessa onda de relançamentos, seus discos originais voltaram às lojas em CD. O formato também estava próximo da morte, mas acabou facilitando a migração digital que fez com que toda essa obra fosse parar na internet. Outro empurrão de peso veio com o aval da banda que rompeu a dicotomia MPB/Rock nos anos 2000: os Los Hermanos, que cantaram ‘À Palo Seco’ no Lual MTV e com o próprio Belchior no programa do Serginho Groisman .

“Só uns chatos para resgatar outro chato”, dirão alguns detratores. Mas esse tipo de crítica não teria mais o efeito que antes. Além de devastar a indústria do disco como conhecíamos e  permitir que uma imensidão conheça a obra de um determinado artista, a internet feriu de morte o que restava da chamada crítica musical jornalística. Não que ela não exista mais. Textos continuam a ser publicados nos jornais e sites. Mas não tem mais a mesma relevância e poder de persuasão – e de destruição – que antes. Os ouvintes não precisam mais da intermediação dos veículos de imprensa e seus críticos para serem apresentados a uma obra e tomar a decisão de prestigiar um artista ou não.

O saudosismo que impera na web e na vida em geral foi outro fator a ajudar no resgate de Belchior e sua obra. A geração de jovens que atingiu a maturidade nos últimos dez anos, coincidentemente a do período do sumiço/fuga/reclusão de Belchior, achou seu ídolo no passado. Assim como fazem com roupas, acessórios, máquinas de escrever e vitrolas, abriram um velho baú fechado de um tio querido e transformaram a velha roupa colorida que estava ali mofando numa vestimenta nova, moderna e vistosa, feita pra brilhar. Belchior

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