Abaixo o imperialismo dos Beatles

Abaixo o imperialismo dos Beatles

Edmundo Leite

01 Junho 2017 | 22h09

Amanhã fará 50 anos e um dia do lançamento do disco Sgt. Peppers dos Beatles. No segundo semestre deste 2017 teremos ainda pela frente os 50 anos da morte do primeiro empresário dos Beatles, Brian Epstein, os 50 anos da publicação de uma carta coletiva a favor da maconha assinada por Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Star, os 50 anos do lançamento da música All You Need is Love, os 50 anos do fracassado especial de TV Magical Mistery Tour,  os 50 anos do anúncio da viagem dos Beatles à Índia, que só aconteceria no ano seguinte, o que levará aos 50 anos da viagem propriamente dita em 2018, que também será lembrado como os 50 anos do Álbum Branco…

      

Além da obra genial, os Beatles criaram uma máquina de perpetuação implacável.

Em 1977, ninguém estava lembrando dos 10 anos de Sgt Peppers. Todo mundo estava vivendo no presente e no futuro, dançando Bee Gees nos embalos de sábado a noite nas discoteques, cantando ABBA, ouvindo Paul e seu Wings, curtindo Elton John ou se assuntando com os punks cuspindo na cara de todo mundo, inclusive dos Beatles.

Nos anos 80 também. Ninguém, tirando os beatlemaníacos de fã-clube, estava ligando para os 20 anos do Sgt. Peppers. Todo mundo estava curtindo o hit ‘Got My Mind Set On You‘, com direito a George Harrison de blazer com ombreira e cabelo mullet.

Mas aí alguém se lembrou do primeiro verso de Sgt. Pepper: “It was twenty years ago today” (“Faz vinte anos hoje”) e resolveu escrever sobre os 20 anos do disco, revolucionário como todos os outros que o grupo fez. A partir dali, a cada década reverencia-se os 30, os 40 e, agora, os 50 anos do álbum do Sargento Pimenta.

E a máquina imperialista dos Beatles não nos deixa esquecer: a cada novo aniversário lança algo ainda mais caprichado, com algo que não tinha no original e nas versões posteriores: a melhor gravação de uma música, mas que foi descartada por causa de um espirro do John Lennon; outra de um ensaio cantada lindamente por Ringo Starr; um acorde com uma nota que ninguém notou a diferença, mas que muda completamente o sentido da música… Tudo isso empacotado em lindas e fascinantes embalagens. Como resistir?

Deveria existir algum órgão como aqueles que protegem as crianças de publicidades nocivas e de embalagens vistosas que induzem à compra de brinquedos e guloseimas para proteger os indefesos fãs e admiradores dos Beatles desse ataque imperialista que insiste em transformar a arte em meros produtos consumíveis.

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