Atletas profissionais deviam declarar publicamente tudo que tomam

Atletas profissionais deviam declarar publicamente tudo que tomam

Edmundo Leite

21 Julho 2011 | 15h49

 Dizer que a absolvição de Cesar Cielo após  resultado positivo num exame antidoping é  caso clássico de “dois pesos, duas medidas” é pouco. Que o recordista mundial foi protegido, por vários interesses, é claro.  Quem cobre esporte já sabe até o enredo: atleta de ponta é pego no antidoping e logo aparecem as justificativas mais inusitadas: foi a pomada para a espinha, o pão com sei lá o que, a substância rara de uma fruta rara que libera o dopante somente em determinadas condições em apenas um dia do ano, um chá inocente oferecido por uma tia velhinha, o toque involuntário em uma maçaneta da porta de um banheiro de vestiário com nanopartículas do xixi de outro atleta.

Algumas das desculpas vem até com atestados para justificar a substância proibida. Se é tão fácil obter um atestado de contaminação desse tipo depois que o caso explode, porque não requisitar uma análise antes de consumir o suplemento alimentar, eufemismo para o doping com bombas toleradas no meio esportivo?

Quando o doping de Cielo foi anunciado teve gente, inclusive na imprensa esportiva,  que de cara absolveu o atleta, dizendo que o conhecia e que ele era um “cara gente boa”, que tinha certeza da inocência do “nosso campeão”. É esse tipo de discurso que em boa parte vai determinar o destino do atleta flagrado. Um bad-boy com maus antecedentes de comportamento fora da vida esportiva já sai perdendo alguns pontos num BO desses.

Condenar o atleta de pronto também seria pré-julgamento, argumentam do defensores de atletas flagrados com substâncias proibidas em seus corpos. Não é. Tanto que a suspensão preventiva é imediata. Claro que todos têm direito à defesa. E num mundo tão competitivo e cheio de interesses bilionários, não é difícil supor que existam até casos  de sabotagem adversária. Não duvido que possam existir casos de dopings involuntários. Mas fica realmente difícil acreditar quando acontecem casos como esses de atletas de primeiríssima linha. Onde está toda aquela estrutura profissional que os atletas gostam de dizer que tem, mas não passam de puro marketing?

Desde as primeiras aulas de educação física na escola todo mundo já ouviu falar de doping e o que se pode ou não pode tomar. “Atletas federados”, os primeiros ídolos dos pequenos amigos  e colegas, contam para todos sobre substâncias mágicas que ajudam a aumentar a performance e rendimento. Gente que entende do assunto já declarou várias vezes que o doping é uma praga que está disseminada em todo o esporte e que, com a sofisticação da tecnologia genética, é cada vez mais difícil detectar algumas práticas ilícitas.

Mas a tecnologia também pode ajudar na prevenção e apuração de doping. Uma medida simples seria criar um sistema em que o todo o atleta – através de sua equipe técnica – declarasse publicamente tudo o que  consome em sua preparação. Coisa fácil de fazer, pela internet mesmo. Uma espécie daqueles sites que mostram as contas e gastos públicos do governo. Só que me vez de números, uma ficha técnica, física, química e biológica do atleta.

E, para ser mais transparente, o atleta poderia compartilhar essas informações em suas páginas oficiais. Ganhariam um ponto em sua credibilidade. Mas e a privacidade? A revelação do uso de alguns remédios pode escancarar que o atleta tem um problema de saúde corriqueiro, mas constrangedor. Ninguém quer sair por aí dizendo que está com frieira. Ok, não precisa dizer pra gente que tá usando um ‘frieirex’. Mas se uma substância contida nesse inocente remédio está na lista da agência antidoping esse será o preço a pagar.