Uma jóia da arquitetura paulistana desaparecerá em breve

Uma jóia da arquitetura paulistana desaparecerá em breve

Edmundo Leite

08 Julho 2017 | 07h00

A família do mestre de obras Carlos Buoro, um imigrante italiano que chegou ao Brasil em 1921, se despede nesse fim de semana de sua mais bela obra: a própria casa que construiu na rua Capote Valente, em Pinheiros. Com um estilo próprio e erguida por ele sozinho nos anos 50 sem ajuda de operários, a residência de quatro andares é uma jóia desconhecida da arquitetura paulistana. Unindo técnicas modernas e tradicionais a uma ousadia estética e construtiva incomuns para época e até para os dias atuais, Buoro criou uma casa única, uma obra de arte fora dos padrões ornada com pedras que coletava de um rio que passava ali por perto, mas que hoje corre escondido, canalizado sobre os prédios da vizinhança.

Na segunda-feira, 10 de julho, as chaves da casa serão entregues à construtora Idea Zarvos, que comprou o imóvel dos herdeiros após a morte da última moradora, a professora de arte Joana Catarina Buoro, no ano passado. Enquanto não entregam o imóvel, os descendentes de Buoro organizaram nos últimos meses um ‘família vende tudo’.

Com o coração dividido entre o apego à história familiar e a necessidade de se desfazer de uma grande quantidade de objetos, móveis, eletrodomésticos, esculturas e obras de arte que estavam na residência, o genro e o neto de Buoro, Edmundo e Celso, têm ido todas as quintas-feiras e fins de semana receber interessados no acervo que é um retrato de várias décadas de vida de uma família paulistana de classe média.


Quem chega lá é recebido com simpatia e empolgação pelos dois e um amigo que contam orgulhosos a história da casa e mostram os detalhes da engenhosidade da construção e outros feitos do velho Buoro (“limpava os dentes com canivete…”) que morreu septuagenário na década de 70.

A ousadia estética e engenhosidade da casa do número 839 começa pelo muro escultural, uma sequência de três conjuntos de lanças de concreto armado que se integram com o pequeno portão da entrada.

Como estalagmites surgidos das profundezas, a estrutura é o topo de um muro de arrimo feito para proteger a propriedade do aterramento da rua, muito íngreme, feito pela prefeitura. Quando iniciou a construção, a casa ficava no nível da via. O aterramento fez com que Buoro achasse que a casa parecia soterrada num buraco e começasse a expandi-lá para o alto, de modo que a entrada ficasse no nível da rua.


Já na entrada começam os primeiros abalos estéticos planejados por Buoro, com os mosaicos do piso do corredor cuidadosamente desenhados. À esquerda, um item geralmente despercebido nas construções mostra o esmero do mestre de obras: as tampas das caixas de coleta de lixo e registro de água feitas de concreto vão muito além do aspecto funcional e adquirem um efeito decorativo, com a simetria de suas fendas e janelinhas. Desse corredor avista-se melhor o conjunto de brises verticais que protegem a grande janela frontal da sala, proporcionando ainda ventilação e iluminação natural e privacidade.

Antes de entrar na sala, da camarinha é possível avistar a grande parede com uma lareira cercada por desenhos esculturais de um construtor com um colher de pedreiro, uma pirâmide, coqueiros e um pássaro montados com pedras. Tudo feito artesanalmente por Buoro com as rochas que ia buscar no riozinho com um carrinho de mão. No teto, um lustre de quase 500 quilos também feito de pedras é sustentado por grossas correntes.

Numa reportagem publicada no jornal Folha Ilustrada nos anos 50 preservada pela família, Buoro fala de suas motivações e conta que muitos duvidavam que ele conseguiria fazer tudo sozinho e que vizinhos zombavam quando ele carregava latas com pedras. “Coragem, força e persistência. Eu coloquei isso no lugar do dinheiro que faltou”, disse ao repórter Sergio Paulo Freddi, autor do texto ‘Mestre de obras italiano constrói sozinho um prédio de 4 pavimentos’.

Buoro diz que o seu capricho devia-se a um engenheiro, seu ex-patrão, que duvidou que conseguisse executar o plano, que chamava de loucura. A reportagem conta também que Buoro solicitou um fiscal da prefeitura para atestar que estava fazendo tudo sozinho e que este também duvidou, chamando vizinhos para darem seu testemunho. A carta do mestre de obras ao I.A.P.I, assim como os alvarás e plantas da casa estão preservadas pelos familiares.

Na carteira de trabalho de Buoro, o nome de algumas empresas de renome na engenharia, arquitetura e construção constam das anotações. Mas um nome que não está no documento é o que mais dá orgulho nas histórias lembradas pelos herdeiros: o de Lina Bo Bardi, a arquiteta italiana responsável pela concepção do Masp e do Sesc Pompéia para quem o mestre de obras trabalhou em alguns projetos.

Dada algumas características da casa da Capote Valente, não é difícil que um possa ter influenciado o trabalho do outro. Na sala e nos quartos, por exemplo, Buoro construiu frestas de entrada de ar junto ao teto para ventilação e iluminação natural dos cômodos. A fachada da casa e a escada suspensa no ar também remetem à famosa casa de vidro de Lina no Morumbi.

Mesmo ofuscada por causa do muro do prédio ao lado, a escada externa que liga os pavimentos ainda impressiona.

As inovações do mestre de obras italiano não ficavam só na construção. Buoro também decorava a casa com esculturas de animais cravejados de pedras e outras peças que criava e construía. Antes de iniciar o quarto pavimento, Buoro instalou no teto da casa uma horta suspensa com quatro canteiros cultivados dentro de caixas. “Colhi 25 quilos de tomates. Se não der para terminar o outro pavimento eu isolo a laje e vou fazer outra horta de verdade aqui em cima”.

Como conseguiu realizar o sonho de erguer o andar superior, a horta foi para o quintal dos fundos, à frente da primeira casinha que construiu ainda nos anos 20, quando comprou o terreno, e morava com a mulher Clementina.


Nos últimos dois meses em que a casa está aberta ao público, Edmundo e Celso têm recebido uma variedade de gente interessada nos mais diferentes itens. Colecionadores, marchands, vizinhos curiosos ou apenas passantes em busca de uma pechincha se impressionam com a obra de Carlos Buoro.

No caso dos vizinhos, muitos tinham curiosidade de conhecer o interior da casa, mas dizem que se sentiam tímidos em abordar a antiga moradora. Num dos sábados de ‘família vende tudo’, uma senhora contou que quando menina esteve na inauguração da parede com a lareira.

Celso, que passou as férias da infância no local, conta que a casa e o terreno eram uma mistura de castelo, bosque e parque de diversões pare ele e as outras crianças da família, sempre às voltas com as ferramentas e engenhocas construídas pelo nonno. Com uma possibilidade pequena de a casa não ser vendida, Celso pensava em montar um bistrô com um centro cultural ali. Mas com a concretização da venda deixa o saudosismo de lado e vai cuidando com ânimo ao lado da pai da operação para esvaziar o imóvel.

Neste sábado e domingo, pai e filho estarão na casa pela última vez para vender os poucos itens que restaram e se despedir do local. O terreno ao lado do imóvel já foi terraplanado pelos novos donos que aguardam o próximo dia útil para tomar posse do número 839 da Capote Valente.

Fotos: Edmundo Leite | Consultoria arquitetônica: Juliana Tourrucôo