As fontes e as jacas
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As fontes e as jacas

Redação

15 Outubro 2010 | 18h07

Cada entrevista é uma surpresa. Eu me preparo, faço uma lista com várias perguntas e, na hora “H”, sempre vem uma fala inesperada. Algumas me dão ideias novas, mudam minha pauta para melhor. Outras simplesmente me deixam momentaneamente sem palavras.

Uma delas eu ouvi no mês passado, quando produzia matéria sobre o Parque Municipal de Belo Horizonte (a pauta era “Parque do Ibirapuera”, mas eu estava em BH). Depois de uma pesquisa, fiquei sabendo que o parque doava jacas à comunidade. Jacas! Mas há quem queira jacas assim? Fui apurar.

Lá, a funcionária Marta, que gerencia carinhosamente a lista dos candidatos a receber a fruta, relatou a situação: “Desde que uma TV divulgou a doação, tivemos de praticamente implantar um setor jaqueiro. São hoje 714 pessoas na espera. Tem gente que vem com a família de longe buscar a jaca, faz doce e ainda traz para nós.”

– Quem já trouxe doce para você?
– Ah, uma vez veio um senhor muito simpático, que estava doente na época (idosos, grávidas e doentes tem preferência na fila).
– Não se lembra do nome?
– Humm… Não sei. Tenta esse aqui (apontou para o caderno).

…..

– Oi, boa tarde. Eu posso falar com o Tássio?
– Quem quer falar com ele (voz brava)?
– Meu nome é Nayara, sou jornalista e estou fazendo uma matéria sobre as 35 jaqueiras históricas do Parque Municipal. Como sei que o Tássio recebeu uma jaca, fez um doce e o levou para o pessoal, eu gostaria de bater um papo com ele.
– Então… É Nayara, né?
-Isso.
– Nayara, o Tássio morreu.
– …
– Ele teve um AVC há alguns meses… Antes, teve um câncer no estômago. E foi nessa época que a gente descobriu que a jaca ajudava na mastigação. Aí, fui ao parque pegar uma para ele, sabe?
– Sei…
– Ele ficou muito satisfeito, fez o doce e fez questão de levá-lo pessoalmente para a Marta. Ele sempre foi uma pessoa muito querida por todos, muito simpática, inteligente, carismática… (outros vários elogios)

Era o irmão.

Com o coração meio doendo, quis ouvir ainda outra fonte (uma senhora de 62 anos). Essa comeu a jaca, feliz, em dois dias e não tinha história triste para contar (ufa!). Mas, no fim da conversa:

– Você não quer vir aqui em casa para a gente conversar, tomar um café? Eu tenho muitas plantas e animais em casa. Você ia gostar tanto!

Definitivamente. Mas é preciso manter certa distância das jacas, né? Senão o coração e o texto ficam pegajosos que nem elas.

– Obrigada pelo convite, senhora. Mas eu tenho que terminar esse texto daqui a pouco e depois voltar para São Paulo.

Nayara Fraga Sampaio, de 24 anos, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas)

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