As viagens de imprensa
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As viagens de imprensa

Redação

25 Outubro 2010 | 15h20

Experimentar. Aguar os sentidos. Transpor fragmentos da vida para o papel. Esse acaba sendo o trabalho do jornalista: dar um recorte da realidade para o leitor. Quando o profissional ainda tem a oportunidade de sair do seu nicho, sua cidade, seu cotidiano para viajar por outras realidades, entendemos o quão encantador pode ser essa profissão e o motivo de muitos se apaixonarem por ela.

Histórias como a do repórter Lourival Sant’Anna, que viajou por 47 países a trabalho, nos inspiram como jovens jornalistas. Afinal, assistir a história ao vivo é um privilégio. Entre as experiências de Lourival estão a entrevista com Yasser Arafat, na Palestina, os dias que passou com membros do Taleban no Afeganistão, a cobertura da guerra na ex-Iugoslávia. A propósito, quem quiser conhecer melhor suas reportagens pode acessar o site de Lourival.

Porm, as viagens de Lourival e de outros repórteres como Patrícia Campos Mello, que cobriu a saída dos mineiros no Chile, são cada dia mais raras no jornal. Seja pelos custos, seja pela invasão das agências noticiosas. Por isso, hoje o mais comum são as viagens a convite de empresas.

Mas isso não significa a perda da independência de um jornal. Até porque nenhuma empresa obriga o jornalista a fazer uma matéria sobre o que ela quer. Entendo as viagens a convite mais como uma tentativa sofisticada da assessoria de emplacar o seu cliente e tentar pautar a mdia. O que muitas vezes dá certo, porque o jornal dificilmente libera um repórter para uma viagem se ele não for produzir algo.

Não critico as viagens a convite, até porque, nesses casos, o leitor é comunicado. Em casos de cadernos de consumo como Viagem e o de Autos, raras são as viagens não patrocinadas.

O que o repórter precisa é ter claro que, em viagens pagas por empresas, o tempo de apuração e da programação da assessoria de imprensa, não a dele. Aliás, difícil apurar além do proposto pela programação oficial, que geralmente apressada e movimentada. Sentimos isso na pele durante a expedição a Santa Cruz do Sul (RS), onde pudemos conhecer o processo produtivo da fumageira Philip Morris.

Com atividades nos três turnos, a empresa nos mostrou o que tinha de melhor e os benefcios que trazia para a região. De vez em quando, algumas situações pareciam artificiais, como a visita que fizemos a uma família produtora de tabaco. Entendi a visita como as que fazemos casa de um parente: ele sempre quer mostrar o que há de melhor em sua casa, por isso, ele vai arrumar a bagunça antes de você entrar e vai servir o melhor lanche.

Muitos colegas voltaram frustrados da viagem. Acho que esperavam aventuras como as de Lourival Santanna e Patrícia Campos Mello. Para mim, fica o aprendizado que a postura de uma viagem a convite difere de outra custeada pelo jornal. Não entendam como uma postura passiva frente a uma empresa anfitriã, mas que, de um convite, de uma tentativa de pautar a imprensa, é possível extrair muito aprendizado e possibilidades de pautas mais criativas do que se tivéssemos ficados sentados dentro de um prédio na redação.

Flávia Maia, de 23 anos, é formada Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB)