De dentro
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De dentro

Redação

15 Outubro 2010 | 11h38

“Eu não sou daqui, sou de fora.” Foi o que mais ouvi em São Paulo, pedindo informações na rua. Eu mesma usei essa frase, desculpando-me a qualquer perdido querendo se achar. E no Curso Estado de Jornalismo, muitos de nós somos “de fora”.

Caetano Veloso estava certo: quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi. A minha primeira visão de São Paulo foi a Estação da Sé na hora do rush. Aquele fascinante e aterrador mar de gente. Mesmo sendo do Rio, lembrei das palavras do meu ex-chefe: “Qualquer lugar, comparado a São Paulo, é Arapiraca.” Acho que era isso.

Infelizmente, tenho que concordar com ele. A cidade é tão grande que às vezes me sinto vinda do interior. A confusão não está apenas nas multidões que parecem se mover sob a batuta de um regente imaginário. Na rua que recebeu o carinhoso título de “minha”, pequenas contradições podem ser percebidas.

Apesar de localizada em uma região valorizada da cidade, perto da Avenida Paulista, a rua onde moro tem contrastes visíveis. Um mendigo, para demarcar seu território, cuspiu um cigarro em mim, uma vez que invadi seu espaço. Em outro belo dia cinza da capital, um travesti manifestou seu descontentamento com a minha presença. Uma cusparada dele foi o suficiente para me afastar. Sob o vento gelado das noites paulistas, o conforto das minhas pilhas de casacos desaparece ao passar pelas moças de pouca roupa. Daquelas que fazem ponto na esquina todas as noites, faça frio ou faça frio.

A recepção não foi das melhores, admito. Mas o tempo passou e a cidade tratou de me acolher. Me surpreendi dando informações aos perdidos como eu. Percebi que a música do artista de rua, também “de fora”, se tornou familiar e imprescindível. E na mesma calçada onde amanhecem os restos das noitadas com as moças da esquina, vi framboesas pelo chão. É que, na minha querida rua, existem árvores desta fruta vermelha e, não raro, é possível avistar casais à sombra delas.

Assumo que me entreguei aos encantos pouco óbvios de São Paulo. Talvez por serem numerosos os “de fora”, é fácil ser assimilado. Basta não resistir. Muitos dos alunos do curso, como eu, não sabem se farão daqui sua casa. Da minha parte, agradeço à cidade por ter me aceitado tão rapidamente. Posso, humilde, dizer: sou de dentro.

Marina Estarque, de 23 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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