Como foi fazer nosso 1º newsgame
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Como foi fazer nosso 1º newsgame

Carla Miranda

12 Dezembro 2014 | 15h18

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Como mostrar o percurso que se percorre até virar um atleta olímpico – dos primeiros desafios, ainda na infância, até chegar à categoria profissional? Texto? Definitivamente não. Com certeza seria uma narrativa desinteressante. Vídeo? Não, acabaríamos dependendo de histórias individuais. Infográfico animado? Bem, quase lá.

Queríamos mesmo era fazer um newsgame – ou um jogo jornalístico.

Partimos nessa empreitada, sem saber os desafios de apuração e edição envolvidos. Sem falar na necessidade de buscar quem ilustrasse e programasse o jogo.

Sobre a ilustração e a programação não podemos falar muito. Aprendemos alguns detalhes, claro. Mas nada que conseguíssemos explicar de forma eficiente neste post. Uma coisa a gente descobriu: os gamers falam em cerca de três meses para fazer um jogo. Tínhamos metade disso.

Mesmo antes de encontrar quem programasse o jogo, começamos a definir quais modalidades teríamos como foco. Rapidamente descartamos a ideia de modalidades – no plural. Cada esporte é muito específico, não daria tempo de montar múltiplas trajetórias.

Um esporte só. Era isso que faríamos. Mas qual? Procuramos entre os que o Brasil tem mais medalhas. O passo seguinte foi descartar todos os que eram coletivos, para simplificar a programação. Entre os individuais, os mais cotados eram os recordistas judô e natação.

Mas como fazer um jogo de luta que se destacasse num cenário que tem games muito elaborados? Tchau, judô! Nossa história seria sobre natação.

O newsgame que você viu acima, aparentemente tão simples, esconde uma quantidade incrível de apuração, além de trabalho de roteiro e edição. Algo que ninguém da equipe nunca tinha feito antes.

Detalhes, detalhes, detalhes. Tivemos de conversar com atletas, técnicos, nutricionistas, psicólogos, médicos. O volume de apuração, muito provavelmente, foi maior que o necessário para construir uma reportagem tradicional. Quando achávamos que tínhamos acabado a fase de entrevistas, lá vinha uma nova dúvida. E foi assim até quase o fim do processo.

Mesmo quando o game ficou pronto, ele não estava pronto. Opa, a piscina está escondendo o cenário, apareceu um “a” no final de Maria Lenk, o vencedor virou Deus e está andando sobre a água… A parte técnica da natação está correta? Na prova dos 50m livre, a braçada deve ser rápida ou alongada, hein?

De tudo o que fizemos nesse material de conclusão de curso – 12 páginas de tabloide, vídeos, podcasts, infográficos e hotsite -, o neswgame foi o que consumiu mais tempo. Começamos antes, terminamos aos 45 minutos do segundo tempo, com emoção e ajuda do programador Philip Mangione e do ilustrador Bruno Speranzoni.

Bibiana Guaraldi, Caio Hornstein, Gabriela Korman, Marília Marasciulo, Raquel Brandão e Thiago Sawada

O QUE DESCOBRIMOS NA APURAÇÃO

Não existem fórmulas secretas ou receitas mágicas para que um atleta se torne medalhista olímpico, mas é possível estabelecer alguns fatores que influenciam e favorecem o alcance deste objetivo. Este é o princípio do jogo Desafio Aquático, criado para que você conheça estes fatores e a trajetória de um atleta de natação que busca uma medalha nas Olimpíadas.

As fases do jogo foram divididas de acordo com as competições que o atleta deve participar até chegar às Olimpíadas: campeonatos regionais, nacionais e mundiais. Dentro de cada uma delas, estão os fatores fundamentais que devem ser aperfeiçoados e trabalhados ao longo desta jornada: treino, alimentação, sono e preparação psicológica.

A modalidade é o nado livre, mas as distâncias variam na medida em que o atleta cresce – o comum é que atletas mais jovens nadem em provas mais longas e os mais velhos nadem nas competições de 50 m. Um atleta de natação pode ser considerado profissional (ou uma aposta, em alguns casos) aos 11 anos, quando participa de competições regionais. Com 13 anos, ele já disputa campeonatos nacionais. Os principais são o Maria Lenk, o José Finkel e o Open de Natação. Entre os 17 e 19 anos, participa de competições internacionais, como o Multination, o Pan Americano e o Campeonato Mundial da Federação Internacional de Natação.

As informações encontradas no jogo foram dadas pelo treinador André Luiz Simões Ferreira, do Clube Pinheiros; pelo nadador Henrique Rodrigues; pelo psicólogo João Ricardo Cozac, presidente da Sociedade Paulista de Psicologia do Esporte; pela nutricionista Andrea Zaccaro de Barros, presidente da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva; e pelo médico Ricardo Munir Nahas, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte.

TREINO

O treino varia de acordo com cada atleta e com a fase de treinamento definida pelo clube. Alguns podem intensificá-lo mais perto de competições ou estabelecer rotinas próprias, mas em geral um atleta de natação nada de cinco a seis mil metros por dia e faz mais ou menos duas horas de musculação – atletas mais jovens focam principalmente em movimento e equilíbrio, a carga é inserida ao longo do tempo. No total, são em média sete horas de treino por dia, contando o intervalo entre o treino da manhã e da noite. A tecnologia é muito utilizada pelos clubes, com destaque para o Acquanex, um aparelho que filma o treino e identifica, por exemplo, a força da braçada do atleta.

Na natação, lesões só costumam acontecer se o atleta exagerar no treino, por isso é importante que o atleta respeite a rotina de treinos e esteja atento a sinais de fadiga, como insônia, irritação e cansaço desproporcional. As lesões mais comuns em nadadores são as tendinites, especialmente nos ombros, devido a inflamações dos tendões responsáveis pelo movimento circular da braçada. Em algumas modalidades, como crawl e borboleta, o atleta pode ter processos inflamatórios nos joelhos. O tratamento varia de fisioterapia a cirurgias, dependendo do diagnóstico. Em geral, para se recuperar de uma lesão moderada são necessárias seis semanas de tratamento.

ALIMENTAÇÃO

Ao se tornar um atleta, é essencial adaptar a alimentação às novas exigências do corpo – isso inclui abrir mão de muita coisa, especialmente frituras e bebidas alcoólicas. A dieta varia com o antes/durante/depois do exercício e é adequada ao biótipo de cada pessoa e do esporte. Na natação, um porcentual de gordura corporal mais elevado é aceitável, pois ajuda o atleta a flutuar. O comum é ficar entre 10 e 12%.

Na véspera de competições e treinos, o ideal é que o atleta consuma carboidratos simples, como pães brancos, bolachas, tapioca, bolos. Após o treino, o atleta deve recuperar aquilo que gastou, aí entram as proteínas, vitaminas e sais minerais. Em todos os casos, as fibras devem ser evitadas. Nas vésperas das competições porque estimulam a atividade intestinal, após o treino porque diminuem a velocidade de absorção dos outros alimentos e retardam a recuperação. É por isso que, no jogo, um copo de suco de laranja natural não é uma boa opção, pois possui muitas fibras.

É interessante ressaltar que em competições fora de casa, o atleta deve evitar experimentar a culinária local para não correr riscos de ingerir alguma bactéria estranha ao organismo – e não passar o resto do campeonato no banheiro.

SONO

Não adianta treinar e se alimentar bem, e não repousar. O descanso faz parte do preparo e o ideal é que o atleta mantenha uma rotina de oito horas de sono por dia, além de um intervalo após o almoço durante os treinos para se recuperar. Qualquer atividade que possa atrapalhar essa rotina – baladas, nem pensar! – prejudicam o rendimento no dia seguinte.

PSICOLÓGICO

Com o avanço das tecnologias para os treinos e conhecimentos técnicos, melhorias no preparo físico e alimentação, o nível dos atletas do mundo inteiro está cada vez mais próximo. Na hora da prova e nos 22 segundos que ele deve levar para finalizá-la, o principal elemento que pode fazer a diferença é a estabilidade psicológica do atleta. Mas se fosse tão simples estabelecer a maneira perfeita ou uma fórmula mágica para lidar com a mente de cada um, o esporte provavelmente perderia a graça.

O trabalho psicológico é complexo, demanda um mapeamento do perfil do atleta e acompanhamento constante. Algumas condições emocionais podem atrapalhar a concentração e o foco do nadador. As mais comuns são a ansiedade pré-competitiva e medos relacionados ao esporte, como o medo da vitória ou, principalmente, da derrota.

Há também fatores externos que podem prejudicar a estabilidade emocional de um atleta, como a pressão – da torcida, da mídia, do clube, do treinador ou de patrocinadores – e a sensação de “já ganhei” ou “já perdi”. Cada atleta deve encontrar sua própria maneira para lidar com estes sentimentos. Entre as recomendações possíveis estão ouvir música, se isolar e buscar um espaço próprio ou, ao contrário, interagir mais com outras pessoas, procurar visualizar os movimentos e repassar a prova mentalmente. O objetivo deve ser sempre se sentir o mais confortável e tranquilo antes de uma competição.