‘Não há uma área para a qual o jornalismo de dados não seja adequado’
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‘Não há uma área para a qual o jornalismo de dados não seja adequado’

Para Daniel Bramatti, do Estadão Dados, acesso à informação ainda esbarra em alguns empecilhos

Redação

26 Outubro 2017 | 21h45

Por Caio Sartori

O jornalista Daniel Bramatti, um dos fundadores e atual editor do Estadão Dados, acredita na possibilidade de o jornalismo de dados abarcar outras áreas para além da política e da administração pública. “Óbvio que nem todas as reportagens serão com base em dados, mas eles podem ser úteis em uma apuração de cultura, de esportes. O jornalismo esportivo faz jornalismo de dados mesmo sem chamar assim”, diz Bramatti, que falou sobre a colaboração no caso Panamá Papers em debate na 12ª Semana Estado de Jornalismo.

Bramatti é editor do Estadão Dados.

Para ele, o acesso a dados no país ainda esbarra na falta de preparo de algumas instâncias do poder público, desacostumadas à cultura da transparência. “Existe uma grande disparidade no respeito e no conhecimento da lei nas esferas federal, estadual e municipal”, aponta. “Vai no decrescente: o governo federal respeita mais a Lei de Acesso à Informação e tem uma política de transparência ativa com mais tradição que os estados e municípios.”


Segundo Bramatti, os Estados Unidos são a maior referência mundial em jornalismo de dados. Mas ele também vê com bons olhos algumas iniciativas surgidas na América Latina, inclusive no Brasil. Aqui, ele destaca o trabalho do Nexo Jornal, da Agência Pública e do Volt Data Lab, além do próprio Estadão Dados e de equipes especializadas nisso na Globo, na Folha e no portal G1.

Apesar de a discussão sobre transparência pública ficar muito restrita ao mundo do jornalismo, Bramatti vê avanços no debate. Há, segundo ele, uma preocupação em tornar as ferramentas de acesso aos dados públicos mais práticas. “Elas têm ficado mais fáceis e mais acessíveis com o passar do tempo. É uma preocupação de quem produz essas ferramentas.”

A atual geração de universitários e jovens jornalistas tem a possibilidade de aprender técnicas de reportagem com dados por meio de oficinas ou cursos online. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), da qual Bramatti é diretor, abre com frequência alguns cursos mensais voltados para bases de dados simples, manuseadas no Excel, ou maiores, com a linguagem SQL.

Fundado há cinco anos sob a batuta do colunista do Estado José Roberto de Toledo, o Estadão Dados tem no currículo um Prêmio Esso pela série ‘A farra do Fies’, que investigou os gastos do governo federal com o programa de financiamento estudantil. Atualmente, a equipe liderada por Bramatti desenvolve pautas próprias e auxilia as editorias do jornal em diversas matérias. Em um dos exemplos mais recentes, os jornalistas fizeram, também em parceria com a área de infografia, um mapeamento dos roubos de celulares em São Paulo.